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19 dez 2018

Quando rir é o pior remédio

Com amigos como esse que eu tive na infância, os inimigos mais pareciam fiéis parceiros de toda hora. Sabe aqueles velórios, que você vai porque o defunto é a bisavó de um camarada do grupo, da qual nunca se ouvira falar? Fica todo mundo por ali, tomando cafezinho, contando histórias que vão se tornando mais engraçadas e picantes à medida que chega a madrugada. Como a sala está às moscas, mesmo que alguém solte uma risada um pouco mais alta a conseqüência é zero. No dia seguinte, como ninguém tem nada para fazer, a galera continua solidária, e, mais familiarizada com a falecida, que permanece quietinha no seu canto sem reclamar, fica até a hora do enterro. Agora o momento é de seriedade. O padre faz a reza final, a família chora, a maioria de remorso por ter azucrinado muito a vida da velhinha nos últimos anos, quando ela já batia continência para motorista da Viação Cometa, julgando se tratar de uma alta autoridade. Na hora de fechar o caixão, entra em ação o espírito de porco, que, posicionado estrategicamente atrás da turma, começa a sussurrar: atenção, atenção que o caixão já vai fechar, quem beijou, beijou, quem não beijou, não beija mais. É um tal de ombro balançar, sacudindo de maneira descontrolada, como se o grupo tivesse sido tomado num terreiro de candomblé. Você põe as mãos no rosto tentando disfarçar, mas não tem jeito, pois todo mundo já percebeu. Pensei que só crianças passavam por essas saias justas. Outro dia, entretanto, assistindo a uma entrevista de Hebe Camargo, Lolita Rodrigues e Nair Belo no Programa do Jô Soares descobri que os adultos também vivem as mesmas enrascadas. Elas contaram que não podem ir a um velório juntas que começam a rir de maneira tão descomedida que precisam se retirar. E no caso delas a situação é ainda muito mais grave, porque, além de ser adultas, são famosas e, por isso, todo mundo conhece. Rindo convulsivamente num velório chamam mais atenção que o próprio defunto.

O pior é que esses acessos de riso ocorrem de maneira especial nos locais mais inconvenientes. Mais de uma vez assisti a programas de rádio em que foram obrigados a entrar com os comerciais porque o apresentador, depois de ler uma notícia, se descontrolou e não conseguiu parar de rir. Um caso que ficou famoso foi o da jornalista Lílian Wite Fibe. Ela estava num programa ao vivo lendo uma notícia sobre um uma senhora de 80 anos presa quando tentava esconder uma grande quantidade de comprimidos de êxtase. Até aí tudo bem. Mas quando o companheiro da velhinha, de 50 anos, declarou à polícia que não estranhou que ela estivesse levando os comprimidos, pois para ele era viagra, a apresentadora não se conteve. E riu tanto que até chorou em pleno ar. A cena hilária foi repetida muitas e muitas vezes em praticamente todos os canais de televisão.
Tenho um primo, Nella, lá de Macaubal no interior de São Paulo, que morria de vontade de conhecer um tio que diziam ser muito parecido com ele. Quando finalmente conseguiram se encontrar o Nella pôde constatar que a fisionomia do tio não tinha nada a ver com a dele. Caiu na gargalhada e precisou se retirar sem conseguir conversar com ele. Nos meses que se seguiram, sempre que o tio ia em casa, a pergunta era sempre a mesma: mas o que acontece com aquele meu sobrinho? Ele não bate bem da cabeça, não?
Situações constrangedoras que nos fazem perder o controle sobre nossas próprias reações são quase inevitáveis.
Se, entretanto, você está esperando que eu lhe dê um conselho de como se virar nessas situações, vá tirando o cavalinho da chuva – prepare-se para continuar rindo nesse momentos mais impróprios. Bem-vindo ao clube do qual já sou veterano.

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