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20 maio 2019

Acumulando centímetros de experiência

Abdalla foi um profeta dos novos tempos. Sua melhor aula como professor de microeconomia, não teve nada a ver diretamente com os conceitos microeconômicos. Ele passou toda primeira aula do curso explicando porque ninguém deveria trabalhar mais de três anos numa mesma empresa. Sua filosofia era bastante simples: se você trabalhar três anos numa empresa vai aprender dez centímetros, se ficar mais três anos vai passar de dez para doze. Mudando de empresa, com mais três anos você vai aprender mais dez, isto é, oito a mais do que se tivesse permanecido na primeira. Aí, com uma irreverência que não agredia e até o tornava divertido e próximo dos alunos, levantava os braços bem acima da cabeça e caminhava entre as carteiras gritando com sua voz debochada e estridente: é matemática superior do primeiro ano primário, não exige prática tampouco habilidade.Até vocês que têm cérebro de ameba e não sabem absolutamente nada da vida são capazes de fazer esse tipo de conta. Todo mundo ria entendendo suas brincadeiras. Hoje me lembro muito pouco de sua matéria, mas desta primeira aula, que de microeconomia não teve nada, jamais esqueci. Aprendi bem a lição, e embora nunca tenha conseguido mudar de emprego ao completar três anos na mesma empresa, quando passava a linha dos cinco já ficava incomodado – a voz do Abdalla, como se fosse um sussurro distante, me alertava que eu estava perdendo alguns centímetros preciosos de experiência.

Com o tempo a teoria do velho mestre se transformou numa impressionante realidade. Se alguém vacilar e depois de permanecer por longo período numa única empresa ganhar o bilhete azul, provavelmente poderá dar adeus ao mercado de trabalho.
Nem sempre foi assim. Houve uma época em que trabalhar muito tempo numa empresa, ou como diziam os mais antigos “ter tempo de casa” era um tremendo orgulho para o empregado. Ele desfilava pelas ruas com a cabeça erguida, todo cheio de si, envergando o uniforme da companhia. E quando falo em usar uniforme, não estou me referindo apenas ao pessoal do chão de fábrica, mas também àqueles com um pouco mais de zero à direita no holerite. Como professor peguei o rabinho desse momento, convivendo com alguns poucos remanescentes da fase pré-FGTS. Eu me lembro que nessa época durante os cursos de expressão verbal in company que ministrava, logo nos primeiros minutos de aula, pedia que todos se apresentassem, e o tempo de casa parece que fazia parte do nome: meu nome é José Carlos da Silva, estou na companhia há 25 anos e ocupo a função de gerente financeiro. Só faltava o empregado usar uma plaquinha de identificação como parte dos móveis e utensílios.Coitados daqueles que eram mais novinhos de emprego. Quando alguém dizia que estava, por exemplo, trabalhando na firma só há 12 anos, era olhado de cima para baixo, como se os outros quisessem dizer – esse aí ainda nem tirou as fraldas, tem longa estrada pela frente e muito para aprender. Era uma história com começo, meio e fim – arrumava um emprego, permanecia fiel a mesma empresa até se aposentar, recebia um belíssimo relógio de ouro e ia viver seus últimos dias passeando na pracinha.

Está certo que a ordem hoje é estar sempre pronto para mudança, mas alguns levaram essa regra ao pé da letra, caíram no exagero e nem chegam a esquentar a cadeira. Há pouco tempo precisei contratar uma nova funcionária e analisei cuidadosamente o currículo de uma moça indicada por um conhecido. Sua trajetória profissional me deixou espantado – três meses numa empresa, cinco na seguinte, dois na última.
O maior tempo de permanência foi de nove meses. Refleti bastante e me lembrei do Abdalla, imaginando o que ele diria diante de uma situação extrema como essa. Se não estou ficando maluco, me pareceu ter ouvido um debochado sussurro do inesquecível mestre: somando tudo não chega a dois centímetros, Polito.

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