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04 abr 2018

Que novidade é essa?

Talvez o que você imagina ser uma grande novidade não passe de velhas práticas com nova roupagem. As pessoas se surpreendem ao descobrir que atividades que pareciam ser obras dos novos tempos não passam de costumes antigos que foram modernizados.

Minha atividade de comunicador começou cedo. Eu não tinha ainda 15 anos de idade quando já perambulava pelos serviços de alto-falante em Araraquara, no interior de São Paulo.

Até hoje me lembro do jargão que usávamos nos anos 1960: este é o serviço de alto-falante que abrilhanta as festividades da quermesse da igreja Nossa Senhora das Graças. Aqui você ouve as mais belas canções de ontem, de hoje e de sempre.

Dando início à programação desta noite vamos ouvir na voz de Ângela Maria, Babalu, que o rapaz de camisa azul oferece à moça de vestido rosa como prova de admiração e muito interesse.

Tudo muito simples, primário, ingênuo, bem de acordo com a vida tranqüila e sem sofisticação que se levava. A comunicação perfeita para a época certa.

O objetivo era chamar a atenção das pessoas para que comparecessem à quermesse e, ao mesmo tempo, proporcionar alegria e descontração àqueles que praticamente não tinham nenhum outro tipo de lazer.

A voz dos locutores (incluindo a minha) era impostada de maneira artificial e as palavras pronunciadas de forma exagerada. Eu era um garotão, estava ainda engrossando a voz, e várias vezes fui repreendido com severidade pelo Grila, que era o responsável zeloso por tudo o que acontecia naquele rudimentar serviço de comunicação.

Ele dizia que se eu continuasse usando o erre gutural jamais poderia me dedicar à comunicação. Eram conceitos de uma época em que o jeito de falar afetado se constituía num padrão dos locutores, principalmente daqueles que atuavam nos serviços de alto-falante.

Mas não se iluda pensando que só tocávamos Babalu. Não, entre um Babalu e outro giravam, com todos os chiados que tinham direito, Quero beijar-te as mãos, com Anísio Silva e Carinhoso, com Orlando Silva, e…dá-lhe Babalu.

Os rapazes costumavam se comunicar com as moças oferecendo músicas e se identificando pela cor da roupa. O ‘footing’ começava por volta das 19h e terminava no máximo às 22h30. Era um tempo em que as pessoas se deitavam cedo porque no dia seguinte precisavam madrugar.

Os rapazes enfileiravam-se dos dois lados da calçada, enquanto as moças, como se fosse um cortejo, em duplas ou em trios, de braços dados, passeavam entre eles, fazendo o mesmo trajeto o tempo todo.

Nessa caminhada elas ‘flertavam’ com aqueles que lhes despertavam interesse, e como não fazia parte do costume a mulher tomar a iniciativa de conversar com os rapazes, ficavam na torcida para que eles as procurassem.

Por isso, os mais tímidos usavam o recurso do alto-falante para revelar suas intenções. Algumas moças que não eram tão bonitas freqüentavam o ‘footing’ todos os finais de semana e voltavam sozinhas para casa.

Jovem ainda, eu ficava com dó delas e de vez em quando inventava que alguém que não existia lhes oferecia uma música. Não sei se ajudava ou não, mas a intenção era dar a elas um pouco de alento e de alegria.

Pelo menos no dia seguinte teriam como contar alguma vantagem: ‘ontem à noite me ofereceram música o tempo todo, mas enquanto não aparecer aquele que me interessa mesmo prefiro ficar sozinha’.

Falar em ‘footing’, serviço de alto-falante e quermesse nos dias de hoje soa como se fossem informações de outro século – e na verdade são. A maioria dos leitores, e muito provavelmente você, ainda não havia nascido.

Entretanto, se observarmos bem, vamos verificar que o que era feito na época das quermesses interioranas ocorre hoje com uma roupagem diferente. As músicas que os rapazes ofereciam às moças identificando-se apenas pela cor da roupa nada mais são que os ‘modernos’ e ‘revolucionários’ torpedos enviados pelos telefones celulares, com ou sem imagem.

Os ‘footings’ que as moças faziam todas as semanas, na esperança de encontrar alguém com quem pudessem namorar, nada mais são que os passeios descontraídos que as meninas e meninos fazem pelos corredores dos shoppings, ou na praia, com o mesmo objetivo de encontrar o parceiro ou a parceira com quem possam ‘ficar’, ‘dar um rolo’, ou até namorar (essa expressão não precisa de aspas).

Quanto à comunicação, o Grila, provavelmente, me pediria desculpas por ter insistido tanto para que eu mudasse o erre gutural. Deve se espantar ao ver que a maioria da população se expressa dessa maneira e que é uma forma de falar perfeitamente aceita por quem vive dentro ou fora dos praticamente extintos serviços de alto-falante.

As músicas, bem, as músicas. Quase caí das pernas quando outro dia, num badaladíssimo programa de televisão, vejo nada mais, nada menos que Ângela Maria interpretando de forma magistral… Babalu.

Fiquei ali diante da tela, matando a saudade daquele tempo em que as pessoas viviam com tanta simplicidade, movidas por objetivos tão ingênuos para os dias de hoje.

Naqueles poucos minutos em que a grande rainha do rádio cantava aquela canção tão antiga, passou pela minha lembrança as moças de braços dados, sorrindo timidamente ao cruzarem com os olhos dos rapazes, e com o coração disparado na esperança de que eu ou o Grila disséssemos pelo serviço de alto-falante que ele estava oferecendo aquela música para ela, como prova de admiração e muito interesse.

Fiquei emocionado, quase chorei. Olhei dos lados para me certificar de que estava sozinho e disse, estalando os dedos – dá-lhe Babalu!

Superdicas da semana:

– Afeto, amizade, relacionamento são valores sempre atuais

– Por mais sofisticada que seja a tecnologia, a simplicidade continua tendo valor

– A felicidade não depende da sofisticação, mas da forma de viver a vida

– Dizer “eu te amo” nunca sai de moda

Livros de minha autoria que tratam desse tema: “Como falar corretamente e sem inibições” e “Superdicas para falar bem” (também em udiolivro).

 

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