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23 jan 2019

A arte de falar também chafurda na lama

por Reinaldo Polito

Os depoimentos de políticos, empresários, doleiros, intermediários, lobistas, esposas, secretárias, donas de bordel nas diversas comissões montadas nos últimos tempos serviram como verdadeira aula de comunicação. Vamos retroceder um pouco no tempo para entender melhor como foi o princípio. Tudo começou com o caso Waldomiro Diniz. Quer dizer, começou para nós que estamos aqui de fora desse lamaçal todo, porque para alguns políticos e outros espertalhões a história é bem mais antiga e tem até DNA. Foi estranho ver o PT, que além de partido político é o próprio espelho do governo, enrolado com frases e explicações para dizer que nada do que os olhos da população vêem ou o coração sente é verdade, que tudo não passa de histórias inventadas pelas elites oportunistas para desestabilizar aqueles que assumiram o poder democraticamente. Uau! Isso é que é discurso persuasivo, parece até que a turma continua gritando palavras de ordem na porta das fábricas. É irônico pensar que na época de oposição esse mesmo partido sempre dependeu da boa comunicação para se impor num cenário totalmente adverso, pois nasceu num período em que o valor e a razão eram medidos a partir de estrelas reluzentes em cima de uma farda. Agora, entretanto, precisa falar não para criticar ou acusar, mas sim para se proteger. Não teve jeito. Esconder a roubalheira ficou mais difícil do que disfarçar uma gravidez de nove meses.

No início tudo eram trevas
Dava para desconfiar. Entretanto, não passava de desconfiança. Depois, quem é que tinha peito para dizer uma palavra contra os poderosos? Corria o risco de ser fritado no fogo do inferno. Todavia, mesmo desconfiando, pouca gente sabia da dimensão das falcatruas e a maioria de nós vivia num mundo de faz-de-conta. Eu finjo que não sei de nada, a turma lá de cima finge que acredita que eu não sei e… assim vamos tocando a vidinha nossa de cada dia. O caso do Waldomiro Diniz foi a espetada inicial para que a luz começasse a aparecer lá no fim do túnel. Por mais que o fato fosse desmentido, era difícil dizer às pessoas que o que elas estavam vendo na gravação de acerto de propina naquela mesa do aeroporto não passava de ilusão de ótica. Tomada pelo susto, a oposição não acreditava no presente que estava caindo no colo. Durante meses tinham procurado um fato novo para combater o governo, mas não havia uma brecha sequer, como diria o ex-ministro Magri, a situação era imexível. De uma hora para outra os oposicionistas tiveram a chance de fazer um oba-oba para dar uma faturada pré-eleitoral, usando o caso Waldomiro para conquistar a opinião pública. Mas, foi como uma passageira chuvinha de verão, tudo desapareceu rápido. A coisa foi levada em banho-maria até que algumas articulações “superiores” deram uma esfriada na fervura.

O governo foi cauteloso e eficiente naquela oportunidade. Esperou algumas semanas para medir as conseqüências das suas declarações sobre o caso. O segundo homem mais poderoso na linha da hierarquia direta não era o vice-presidente, mas o companheiro de sempre José Dirceu, e mesmo sendo o chefe do Waldomiro ficou quietinho como uma moita antes de dar declarações. Quando as explicações foram dadas, tudo estava mais tranqüilo. Assim, o fato passou das primeiras páginas dos jornais para os cadernos internos até praticamente desaparecer da mídia.

Lições de comunicação – há um momento certo para falar. Deixar passar esse instante, ou ser precipitado, falando antes da hora, poderá prejudicar uma causa que estejamos defendendo. Quantas vezes, por ansiedade ou comodismo, as pessoas se pronunciam antes ou após do momento devido e depois se arrependem, às vezes por não terem se calado, em outras circunstâncias por terem esperado demais. É difícil saber, e também muito comum tomar a decisão errada. Por isso, devemos aproveitar todas as oportunidades para aprender com os erros e acertos dos outros.

Um profeta dos novos tempos
Assim como tem gente que ainda não acredita que o homem chegou à Lua, jurando de pés juntos que tudo não passou de uma tremenda armação hollywoodiana, Dona Lúcia, minha mãe, até hoje acha que o mesmo ocorreu com o impeachment do Collor. Já tentei explicar tudo direitinho para que ela pudesse entender bem como os fatos ocorreram, mas qual o quê: enquanto eu não apresentar prova mais poderosa do que a Elba, ela nem quer discutir o caso. Ao procurar provas mais contundentes para convencê-la acabei encontrando um complicômetro ainda maior para sustentar minha argumentação: o discurso que o deputado Roberto Jefferson fez em defesa de Collor. Disse o deputado: “O furor acusatório da CPI, na expectativa de fazer o terceiro turno eleitoral, cheia de ressentimentos, cheia de revanchismo, buscando punir a vitória pela minoria derrotada, rasgou os dispositivos constitucionais, desrespeitou a lei ordinária, transformou a CPI do PC no açoite contra o presidente da República. Não se enganem aqueles que essa demonstração que foi dada hoje, que esse ato praticado de rasgar a Constituição vai atalhar também quem chegar à Presidência e não trouxer a maioria absoluta no Congresso, porque não terá condições de governar, porque outras CPIs como esta estarão no seu caminho, não para apurar irregularidades, mas pelos preconceitos ideológicos, pelas posições doutrinárias em contrário.”

Mamma mia, no sentido literal, porque é a ela que me refiro, por mais absurda que possa parecer a posição desta velha senhora que tanto quero bem, com o PT sem maioria, talvez estejamos prestes a constatar a realização da profecia do combativo deputado carioca. O que assusta é essa afirmação vigorosa que ele fez – “não para apurar irregularidades, mas pelos preconceitos ideológicos, pelas posições doutrinárias em contrário”. Eu, hein! O que não falta é preconceito ideológico e posição doutrinária em contrário. E cá entre nós, Elba não é um veículo assim tão difícil de ser encontrado nas melhores famílias deste país. Um Land Rover já foi encontrado. O que o ex-presidente do PTB não sabia quando fez suas previsões é que ele seria a primeira vítima de uma “comissão”.

Lições de comunicação – Para quem deseja aprender a falar em público foi possível observar nesta balbúrdia toda como Roberto Jefferson usou com extraordinária competência a sua comunicação. Com sua ousadia; facilidade de articular frases com voz forte e bem pausada; fisionomia expressiva e gestos contundentes; foi um excelente exemplo de como alguém pode se defender diante das situações mais adversas. Demonstrou na prática a eficiência de uma boa regra da oratória: quando uma pessoa está acuada, com argumentos frágeis, baseados apenas em hipóteses, o melhor caminho é partir para o ataque com determinação, e tentar com esse recurso suplantar a vantagem adversária. Quanto a minha mãe, depois de explicar tim, tim por tim, tim tudo o que havia ocorrido, procurei argumentar: – Sabe o que é mãe, o Waldomiro… – Não precisa explicar, filho. Eu só queria entender!

Afinal, o que houve com o Zé Dirceu?
A imagem nunca me saiu da cabeça. A cena do Zé Dirceu deixando o ministério me chocou. Ele foi meu ídolo de juventude. Era brilhante, destemido, idealista. Com sua participação nas atividades estudantis dos anos 60 ele era um pouco do que os jovens da minha época de garoto gostariam de ser. Ainda me lembro de suas fotos discursando diante das platéias que o ovacionavam como um verdadeiro líder. Eu lia e relia as histórias protagonizadas por ele. Sua trajetória é inspiradora – foi preso em Ibiúna em 1968 durante a realização do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes e permaneceu encarcerado até setembro de 1969. Depois disso foi expulso do país, estudou guerrilha em Cuba e só retornou em 1975 para viver clandestinamente no interior do Paraná até 1979. Para permanecer no Brasil, nessa época se submeteu à cirurgia plástica e modificou sua fisionomia. Ou seja, depois de 1968 eu só ouvia falar do Zé Dirceu pelas velhas histórias. O tempo passou, a revolução militar extirpou os movimentos estudantis, cortei o cabelo, ajustei a barra da calça, abandonei as passeatas, deixei as peças “subversivas” de teatro, engavetei meus livros que ensinavam as doutrinas socialistas, virei “burguês” e me esqueci do Zé Dirceu.

De repente, quando eu trabalhava na gerência do banco Francês e Brasileiro e ministrava cursos de oratória na Associação Comercial de São Bernardo do Campo em 1979, fiquei surpreso ao saber que o meu antigo herói estava de volta para fundar o Partido dos Trabalhadores. De lá para cá todos conhecem bem a sua história, especialmente sua participação na campanha das diretas em 1984. Embora as velhas lembranças sempre tenham sido muito agradáveis, pois sei que a minha participação nos movimentos estudantis ajudou a forjar o meu caráter e me mostrou a importância de abraçar uma causa com paixão, tudo se restringia agora apenas às recordações. Eu estava em outra. Casado, com filhos para criar, pensando na carreira profissional, fazendo vários cursos de pós-graduação, eu não tinha nada mais a ver com as aspirações que nortearam minha juventude.

Quase não acreditei quando me dei conta de que em determinado momento estava num embate a distância com Zé Dirceu. Foi na época em que preparei o senador Suplicy para concorrer com Lula à candidatura pelo PT à Presidência da República. O senador não era o candidato do Zé Dirceu e a teimosia de Suplicy chegou a irritar os apoiadores de Lula. Lula venceu as eleições, Zé Dirceu se transformou no grande homem forte do governo, e, talvez, planejando um dia ser ele próprio o presidente do país. Que exemplo. Lutou, acreditou, sofreu, ressuscitou e venceu. Suas idéias já não combinavam com os meus ideais, mas permanecia minha admiração pelo exemplo de sua tenacidade.

Ao deixar o governo em meio a tantas acusações, com aquele cabelinho branco que informa o passar dos anos, acuado, tentando manter a cabeça erguida, me entristeceu e quase me senti também um derrotado. Embora desconfie, ainda não compreendi bem os motivos de sua saída, mas sejam lá quais forem, este não é o momento vivido por um vencedor. Zé Dirceu, Zé Dirceu, em que parte do caminho você rompeu a trajetória da sua biografia? Estamos aguardando a resposta. Seu depoimento foi corajoso, destemido e enfrentou com bravura o grande desafeto Roberto Jefferson. Mas, ainda estamos esperando as explicações.

Lições de comunicação – quando José Dirceu apresentou sua defesa, voltou a falar como nos velhos tempos em que abraçava as causas com idealismo, acreditando nas lutas que empreendia. Jamais devemos nos apresentar em qualquer situação que seja sem demonstrar envolvimento pela causa que abraçamos, pois se nem nós mesmos demonstrarmos interesse pelo que defendemos, não poderemos motivar outras pessoas para que abracem a nossa causa. Ah, não custa nada insistir, ainda continuamos aguardando explicações convincentes.

De repente, uma bomba no palácio
A notícia caiu como uma bomba num final de semana – Rogério Buratti, que atuou como secretário de governo quando Palocci foi prefeito de Ribeirão Preto na primeira gestão, de 1993 a 1996, afirmou ao Ministério Público de São Paulo que o ministro recebia propina mensal de R$ 50 mil de empresas que participavam de forma fraudulenta nas licitações de coleta de lixo em municípios de São Paulo e Minas Gerais.

Se a acusação fosse feita a qualquer outro ministro, a situação seria bastante grave, mas no caso do Ministro da Fazenda, responsável pelo centro nervoso da economia, funcionou como verdadeiro terremoto. Se o ministro não agisse rápido para desmentir as acusações, e de maneira muito convincente, haveria conseqüências não apenas no nosso mundo tupiniquim, mas também no relacionamento do Brasil com os outros países, pois em época de economia globalizada estamos totalmente envolvidos com o mercado mundial. Fazia tempo que eu não via um depoimento importante como esse feito em momento tão oportuno e de forma tão apropriada.

Antonio Palocci iniciou a fala com os jornalistas com um pronunciamento de quase meia hora, rebatendo item por item todas as acusações feitas contra ele. Dentro das boas técnicas sugeridas pela comunicação ele foi perfeito. Quando há um choque de idéias, e neste caso com a parte contrária fazendo acusações, se os argumentos forem baseados apenas em suposições, sem provas concretas, a melhor defesa é essa que foi utilizada pelo ministro – negar com veemência, e ao mesmo tempo com equilíbrio cada um dos fatos apontados. Como Buratti expôs vários argumentos sem consistência, sua acusação seguiu a cartilha, juntou-os como se constituíssem uma única idéia para que assim, unidos, ganhassem peso e relevância. A defesa do ministro foi uma verdadeira aula de contra-argumentação: separou e isolou cada um dos argumentos, pois se a força do ataque contrário estava na união das informações, separadas ficaram enfraquecidas, desprotegidas e facilmente destruídas.

A atitude do ministro também foi exemplar. Falou com naturalidade, como se estivesse conversando normalmente com os jornalistas como sempre conversou. Desta vez, como a circunstância era muito grave, evitou as brincadeiras que costuma usar com a imprensa. Como estava respondendo a uma acusação, mesmo com tranqüilidade, precisaria se mostrar indignado e falar com envolvimento e disposição. O semblante sério deu o tom certo para a situação que estava vivendo. O conhecimento detalhado dos fatos que o envolveram ajudaram a dar mais credibilidade às suas palavras. Ao fazer um amplo levantamento sobre as conquistas do Brasil, especialmente na área econômica, poderia dar a impressão de que iria insinuar que sua saída seria negativa para o país. Pegou a todos no contrapé ao dizer que as nossas instituições estão sólidas e que se saísse não haveria nenhum prejuízo. Foi uma excelente forma de demonstrar que não estava usando de subterfúgios. É claro, entretanto, que se a economia vai tão bem com ele, não seria bom se houvesse troca de ministro. Foi uma “manobra” verbal tão sutil que jamais alguém poderia acusá-lo de estar fazendo a defesa da sua manutenção no cargo.

Depois de concluído seu pronunciamento colocou-se à disposição dos jornalistas por mais uma hora e meia para que perguntassem o que desejassem. Ora, quem tem algo a esconder não se comporta dessa maneira, ao contrário, procuraria se preservar com receio de cair em contradição ou não ter respostas para as questões ainda desconhecidas. A intuição política do ministro foi admirável. Ao responder à acusação mais grave, de ter recebido propina enquanto exerceu o cargo de prefeito, negou com veemência que tal fato tivesse ocorrido, não apenas com ele, mas com toda a estrutura do seu governo. Em seguida, prevendo que mais a frente os jornalistas fariam comparações do seu caso com as acusações feitas contra o presidente Lula, deixou uma porta aberta para não se contradizer e complementou com a ressalva de que, dentro de um quadro com dez mil pessoas, um caso ou outro isolado poderia ocorrer sem que o responsável ficasse sabendo. Não deu outra. Um jornalista fez a comparação tentando pegá-lo pela palavra – disse que se ele afirmava que o responsável pelo governo não passaria sem conhecer as faltas graves cometidas pelos subordinados, significava que o Presidente Lula tinha conhecimento dos desmandos que ocorriam com aqueles que trabalhavam com ele. Sereno, Palocci saiu pela porta que deixara aberta para essa eventualidade: Posso falar com o coração, o Presidente Lula não sabia de nada, nem conhecia muitas das pessoas envolvidas nos escândalos. Como eu disse, fatos isolados, vez ou outra, podem passar despercebidos ao responsável pelo governo.

Foi hábil também ao demonstrar grandeza em dois momentos da entrevista. Disse não ter ódio do Buratti pelas acusações que recebeu. Apenas ficou surpreso, mas entendeu o momento de desespero vivido pelo ex-assessor, no instante em que este estava preso e algemado. Além disso, as esposas e os filhos tinham relacionamento de amizade. No final perguntaram se iria processar Buratti. Se respondesse que não, poderia dar a impressão de ter interesse em não tocar mais no assunto e esconder o fato. Se dissesse que sim, iria se contradizer, pois acabara de afirmar que não sentia ódio daquele com quem um dia conviveu. Saiu assim do dilema: vou conversar com os advogados e verificar o que pode e deve ser feito. Eu sou médico e não tenho conhecimento dos procedimentos jurídicos corretos.

Ao ser perguntado sobre as palavras duras do ex-ministro Berzoini contra ele também foi equilibrado na resposta: ele foi duro com suas palavras, mas na posição em que está como líder do PT, querendo reconstruir a imagem do partido procura respostas às questões levantadas. Berzoini disse posteriormente em entrevistas às emissoras de rádio e televisão que ficara muito satisfeito com as declarações do ministro. E que se todos agissem com a rapidez e a sinceridade como ele agiu, os problemas não teriam chegado à proporção que chegaram.

Até a oposição sempre atenta e interessada em apontar falhas no comportamento daqueles que hoje estão na situação, foi obrigada a se render e elogiar o pronunciamento do ministro.

Bem, naquele momento o Brasil respirou aliviado e tranqüilo com o futuro econômico do país, o mercado financeiro que já apresentava fortes sinais de nervosismo voltou a se acalmar, pelo menos com relação ao caso do ministro. A não ser que fatos novos coloquem mais lenha nessa fogueira. E por algumas notícias recentes já sinto cheiro de gravetos queimando pelos lados do Planalto.

Lições de comunicação – no caso do Ministro Palocci, como vimos, o aprendizado foi com todo o seu comportamento na entrevista.

Ele falou e disse! Esse Severino é uma figuraça
Com tantos fatos novos aparecendo a cada dia, preciso tomar muito cuidado com os textos que escrevo para não correr o risco de queimar a língua. A todo instante tem gente trazendo e levando cheque, dizendo e desdizendo. Fica tudo bonitinho num depoimento, no dia seguinte, do nada, surge um garçom ligando o ventilador e (para ser coerente com a profissão dele) espalhando farinha para todo lado. Quem disse que jamais ficaria doente para se afastar do cargo, começa a adoecer. Depois vem uma secretária dizendo que o cheque recebido foi para a campanha de alguém que já morreu. Mas, de leve, vou me ater a alguns fatos conhecidos sobre o Severino – vai que o homem ressuscita. Todo mundo imaginava que o Severino (imagine dizer Severino assim com essa intimidade, sendo ele um fresco ex-Presidente da Câmara) seria trucidado logo que chegasse dos Estados unidos e pusesse os pés no Brasil. Quando ele decidiu dar a entrevista coletiva então, era uma boca só – o cara não passa da primeira pergunta. Bem, eu não podia perder essa por nada.

Pesava sobre Severino Cavalcanti (com sobrenome já melhorou o tratamento e diminuiu a intimidade) a acusação de embolsar um mensalinho básico para permitir que o empresário Sebastião Buani prorrogasse o direito de explorar o restaurante Fiorella, que opera no 10º andar do anexo 4 da Câmara. Engraçado é que eu escrevo essas coisas e me belisco para ter certeza de que não é um sonho, ou melhor, um pesadelo. A denúncia surgiu com a cópia de um termo de prorrogação do contrato até 2005 apresentado por um ex-funcionário do restaurante, mais os depoimentos de três garçons confirmando que levavam o pagamento da propina.

Expectativa total para a entrevista coletiva. Os jornalistas com a faca entre os dentes estavam prontinhos para tirar o escalpo – é só força de expressão, eu sei que ele é careca.

Severino fez um pronunciamento inicial negando todas as acusações e procurando desqualificar o empresário e o documento apresentado. Revelou que havia solicitado uma análise de um perito para avaliar a autenticidade do documento. O fato de o perito também ser pernambucano é só um detalhe, para a turma do Severino. E de maneira pausada, para dar bastante destaque à informação, disse que o documento fora falsificado eletronicamente. Aproveitou para dizer que havia sido chantageado pelo empresário e que toda a história fora montada para prejudicá-lo.

O mestre de cerimônias fez a abertura e disse que seriam sorteados 10 jornalistas para fazer as perguntas. Severino (já na intimidade de novo) foi rápido no gatilho e ganhou uns pontinhos logo no início, pediu que as perguntas fossem liberadas para todos os jornalistas indistintamente. Foi astuto porque, independentemente de ele ter culpa ou não, a situação era clara – com a participação de poucos jornalistas, estes poderiam fazer perguntas e replicar várias vezes em cima das respostas que recebessem do entrevistado. Abrindo para muitos jornalistas, estes só poderiam fazer uma ou duas perguntas e replicar também uma ou duas vezes. Até por uma questão de vaidade profissional, os jornalistas gostariam de fazer as suas próprias perguntas, e não aproveitar a de seus colegas, mesmo que uma réplica pudesse ser mais vantajosa. Terminada a entrevista o velho Severino ainda queria jogo, pedindo que alguém concluísse a pergunta que queria fazer. Ele estava à vontade e exultante. Parecia aquele personagem de filme de bang-bang que depois de um tiroteio apalpa o peito, a barriga para se certificar de não ter sido atingido por nenhuma bala. Eu fiquei olhando aquela cena e me perguntava, mas cadê o sangue que seria derramado?!

A oposição ficou tiririca com o Severino e queria por que queria cassá-lo de qualquer jeito. Os adversários ameaçaram não comparecer às reuniões que ele presidisse. Acusaram o governo de manipular a base para proteger o aliado. Antes de qualquer apuração já davam os fatos como certos e verdadeiros. No fundo, no fundo o que deve estar acontecido foi o seguinte: elegeram o Severino para impedir que o deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh chegasse à presidência. Depois que o Palácio do Planalto ficou enfraquecido com o imbróglio político dos últimos meses, perceberam que brigar com o governo está mais fácil do que bater em bêbado, e viram a chance de tirar o Severino e pôr em seu lugar alguém que representasse mais a vontade da oposição.

Não teve jeito de segurar o homem. Essa história do cheque ter sido dado para a campanha do filho que já morreu pareceu brincadeira de mau gosto. O certo é que pegaram o homem com a boca na botija, e como disse uma pessoa ligada ao próprio Severino, a presença do cheque é como batom na cueca, não há jeito de negar. Entretanto, a luta de Severino Cavalcanti para se defender, postando-se diante dos jornalistas de peito aberto numa coletiva, foi de tirar o chapéu. De mais a mais, Severino de bobo não tem nada, muito menos quando de propósito faz aquela cara de bobo, de quem não sabe o que está acontecendo. Lembro-me de um comentário do saudoso Ulisses Guimarães: aqui na Câmara dos deputados não tem bobo, pois todos se elegeram. Bobo é quem perdeu a eleição e ficou de fora. Severino se reelege há muitos e muitos anos, saiu do baixo clero para chegar à presidência da Câmara. Se a oposição vacilasse ninguém mais tiraria o homem de lá. No meio dessa bandalheira toda, já ele mesmo foi obrigado a se dar o bilhete azul, só posso aproveitar para me divertir um pouco e dizer – Esse Severino é uma figuraça. Se eu conheço bem a fera, logo, logo ele está de volta.

Lições de comunicação – no caso do Severino tivemos alguns pontos que merecem destaque. O fato de ter se apresentado para a entrevista coletiva antes que os fatos pudessem ser provados. Sua atitude de abrir perguntas para todos os jornalistas, diminuindo a chance de ficar sujeito às réplicas. E finalmente sua disposição de lutar até o último instante para se defender. Lembre-se de que ele jogou a toalha só no finalzinho, quando a água já estava na garganta. Todos nós, não por maracutaia, é lógico, podemos ter de enfrentar situações adversas ao longo da vida. Nesses momentos valerá muito a força de vontade, a determinação e coragem para tentar vencer o desafio.

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