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23 jul 2019

As popozudas também falam

por Reinaldo Polito

Quando ministro palestras e cito minhas experiências treinando alguns políticos duros de cintura no trato com a tribuna percebo no semblante da galera um arzinho de pena, como se quisessem dizer: coitado dele, eu não agüentaria ficar o dia inteiro numa sala de aula carregando esses malas. Mas, a fisionomia da moçada se transforma rapidamente quando viro o disco (essa expressão “virar o disco” já não deveria ser usada, pois agora se “troca o disco”) e começo a relatar uma outra face muito mais suave e estimulante da atividade profissional – minhas alunas popozudas. A Feiticeira, a própria; a Sheila Mello, ex-É o Tchan; a Sabrina Sato, do Pânico – só para mencionar algumas que você não se cansa de ver desfilando nas páginas das revistas masculinas. Então surgem as gracinhas: E aí Polito, ficou sozinho com ela na sala fechada ensinando o que fazer com a mãozinha? Ela estava de veuzinho? Com ou sem roupa? Se precisar de alguém para fazer as filmagens eu estou aqui hein mestre!

O fato curioso é que se fosse a palestra de um fotógrafo especializado em registrar poses sensuais talvez os comentários mudassem de rumo ou até nem existissem, pois a atividade dele pareceria mais apropriada para o trabalho e a formação delas.

Sentiu o drama? Para um grande número de pessoas mulher bonita e gostosa só pode dançar, rebolar e tirar fotografia pelada – nada de querer falar melhor.

Agora quem vai estrebuchar é você, pois vou dar uma notícia que vai deixá-lo com os pelos em pé – elas vão ensiná-lo a falar melhor.

Eu sei que você deve estar pensando – Nananinanã, que história é essa de aprender comunicação com as popozudas? Eu nem sabia que elas falavam, quanto mais que podiam ensinar a falar!

Reflita comigo: Se elas, que nunca tinham pensado em microfone, superaram suas dificuldades e aprenderam a falar direitinho, por que você, que já se preparou tanto, não pode ficar ainda mais comunicativo?!

Mas você ainda deve estar matutando, eokico? Porque uma coisa é aprender, outra é falar e outra totalmente distinta é ensinar. Ou não? Sim e não. Se nós juntarmos tudo o que elas aprenderam, de maneira bem prática, você terá dicas preciosas de como se comportar para ser mais eficiente na comunicação. E ainda por cima dará uma olhada pelo buraco da fechadura para conhecer um outro lado desse mulheril que você imaginava já ter visto por todos os ângulos.

Se você for mulher, deve estar pensando: mas, que papo mais machista! Será que o Polito ainda não percebeu que as mulheres são representativas entre os leitores da Vencer?! Calmaí (como diriam Tamara, Juliana e Marina – sobrinhas que me ajudam a dar uma boa arejada no vocabulário), essa é uma conversa que será útil para ajudar tanto os homens quanto as mulheres a se comunicar de forma mais correta. Por isso, sendo você homem ou mulher, nada de preconceito, chegue mais e vamos pôr as três na roda que o papo fica mais interessante.

Aula com a Sabrina Sato
Vamos começar com a mais despachada das três, a Sabrina. Ela havia acabado de participar do Big Brother e chegou morrendo de medo, mas não medo de falar, medo de que o treinamento tirasse o jeito solto de ser dela. Veio com seu inconfundível sotaque interiorano e aquela conversinha de quem não quer nada – Sabe Polito, eu não gosto muito de algumas apresentadoras de televisão que falam assim de maneira toda articulada. Eu disse – Certo, e daí? Ela meio sem jeito respondeu desviando os olhos- Daí nada, foi só um comentário. Eu não apalpei – Como só um comentário? Você está com medo de que o treinamento a deixe assim toda quadradinha, formatada, diferente do que é hoje. Ela não concordou com palavras, mas sim com aquela risada quase debochada que a fez ficar conhecida em todo o país como uma das participantes mais expressivas, alegres e competentes do programa Pânico, como se tivesse sido apanhada fazendo uma traquinagem. Peguei um exemplar do meu livro “Seja um ótimo orador” que estava sobre a mesa e pedi a ela que lesse em voz alta um trecho da página 27: “Naturalidade. Essa é a mais importante qualidade de um ótimo orador. Não existe técnica em comunicação, por mais elaborada e precisa que seja, mais relevante que a naturalidade. Se a platéia perceber qualquer sinal de artificialismo no seu comportamento como orador, poderá desconfiar de seus propósitos e levantar barreiras à sua linha de argumentação. Portanto, observe que, para obter sucesso como orador, você precisa ser natural e espontâneo”.

Depois que ela terminou a leitura eu disse – agora peça desculpas por ter pensado mal do titio. E ela mais uma vez sorrindo confessou – eu tinha mesmo muito receio de que você quisesse mudar minha maneira de falar.

Percebeu? O motivo dessa preocupação da Sabrina é a maior de todas as aulas de comunicação que alguém poderia ministrar – não mudar o jeito natural e espontâneo de ser.

Muita gente deixa de se dedicar ao estudo e ao aperfeiçoamento da oratória porque imagina que esse aprendizado tolherá sua liberdade e determinará regras que não ajudam, mas, que ao contrário, constroem um estilo artificial e negativo para a comunicação. Essa é uma idéia distorcida, amparada, provavelmente, no exemplo dos antigos oradores que com aquele jeito gritado de falar, obviamente, não fariam sucesso diante das platéias nos dias de hoje. Atualmente os ouvintes esperam que o orador se apresente de maneira solta, espontânea, mais intimista.

Para que o ritmo não fosse quebrado pedi que ela continuasse com a leitura:
“Ao receber os alunos que pela primeira vez procuram o nosso Curso de Expressão Verbal, procuro deixá-los bem à vontade para que possam agir e se expressar exatamente como fazem no dia-a-dia, quando estão conversando com as pessoas mais íntimas. Assim, depois de algum tempo, é possível saber como falam com espontaneidade, sem artificialismos.

Após essa identificação inicial, posso colocá-los diante do público para fazer o que já sabem. Falta apenas aprenderem a se expressar numa tribuna da mesma maneira como se comportam no seu cotidiano, com naturalidade “.

Nesse momento Sabrina afastou o livro e falou com bastante seriedade: Estou impressionada com essas informações. Sempre fui resistente ao estudo da oratória porque pensei que para falar em público as pessoas deveriam se comportar como os políticos quando estão em cima do palanque fazendo comícios. Aproveitei a oportunidade para deixá-la mais interessada ainda em participar das aulas: Leia o que vem a seguir. E ela voltando a gargalhar comentou – qual será a surpresa desta vez? – e continuou lendo:
“A maioria se mostra surpresa ao descobrir que falar em público pode ser tão simples. Muitos aparecem preocupados, imaginando que deverão enfrentar um processo de aprendizagem para serem diferentes. Outros ficam perplexos quando desvendam esse precioso segredo da boa comunicação: quanto mais fizerem o que já sabem, quanto mais próximos da sua verdadeira imagem conseguirem chegar, mais eficientes serão como comunicadores”.

Nesse instante Sabrina já estava pronta para entrar em sala de aula e participar dos exercícios. Fechou o livro e disse com voz bem pausada: Parece que você escreveu este livro para mim. Todas as preocupações que eu tinha foram respondidas nesta página.

Talvez neste momento você esteja indagando, mas como é que eu vou saber se estou ou não falando com naturalidade sem a presença do professor para me orientar? Para responder a essa sua possível dúvida, vou usar o mesmo recurso que lancei mão no treinamento da Sabrina, vou dizer o que o livro “Seja um ótimo orador” orienta na seqüência do capítulo sobre a naturalidade:
“Para saber se você consegue ser natural quando fala em público, reflita bem sobre esta questão: ‘Será que estou falando com os ouvintes da mesma maneira como falaria se estivesse diante de quatro ou cinco amigos muito queridos, na sala de visitas de minha casa, tratando desse mesmo assunto?’.

Se a resposta for negativa, concentre-se na idéia de estar falando para esse grupo de amigos até conseguir naturalidade.

Vá para a frente da platéia disposto a conversar com os ouvintes e não a “falar em público”.

Este é o grande segredo da boa comunicação – se você agir com a postura de alguém que deseja “falar em público”, provavelmente não conseguirá ser você mesmo, pois parecerá a si próprio alguém estranho, com quem não está familiarizado, e esse comportamento poderá deixá-lo desconfortável, pouco à vontade e afastado dos ouvintes.

Atenção, não imagine, entretanto, que ser natural consiste em continuar com os erros e as imperfeições. Saiba que deverá trabalhar duro para corrigir os defeitos de linguagem e de estilo, para que a sua comunicação espontânea seja cada vez mais eficiente.

Por isso, se, ao pronunciar de maneira mais correta as palavras, a platéia notar um grande esforço de sua parte, poderá concluir que sua atitude é artificial e até ficar resistente às suas propostas. O mesmo ocorrerá se você se apresentar com gestos corretos, mas conscientemente planejados, ou se mostre com qualquer outro procedimento que identifique o uso premeditado da técnica, poderá pôr em sua comunicação o mais indesejável dos carimbos: artificial.

Insisto para que você fique atento e observe bem como se comporta quando conversa com as pessoas do seu relacionamento mais próximo, como parentes e amigos, e procure agir da mesma forma quando tiver de se comunicar nas situações mais formais.

Se você estiver pensando – ah, é só isso – dará um passo em falso na caminhada para o aprendizado da comunicação. Eu mesmo disse que o processo é simples e bastante natural, porque para ser um bom comunicador bastará que seja você mesmo em todas as circunstâncias. Mas, para que esse estágio seja atingido você deverá trabalhar duro e se dedicar com afinco para ser espontâneo onde quer que se apresente.

Aí está o exemplo da Sabrina Sato, falando de maneira espontânea, preservando suas características naturais de comunicação e fazendo o maior sucesso no rádio e na televisão.

Aula com a Feiticeira
Com a Feiticeira a bruxaria foi a mesma, só que por outros caminhos. Quando ela apareceu para iniciar as aulas estava um pouco pressionada pela circunstância. Ela que só havia dançado diante das câmeras fez a primeira aparição falando e teve sua comunicação muito criticada por um importante jornal de São Paulo.

Na entrevista inicial eu já havia percebido que ela não teria problemas para aprender a falar bem, simplesmente porque ela já falava muito bem. Só que quando ela se via em situações mais formais mudava completamente, perdia a espontaneidade, ficava artificial e não demonstrava a boa formação que tivera. Pouca gente sabia que atrás daquelas danças sensuais estava uma moça com boa estrutura familiar e preocupada com seu preparo intelectual, tanto que quando iniciou como dançarina estava freqüentando a faculdade de comércio exterior. Portanto, o trabalho também foi bastante simples, só precisei ensiná-la a se preparar com mais afinco para discorrer sobre assuntos com os quais estava familiarizada, mas que conseguia tratar apenas superficialmente. Estruturando melhor o raciocínio e concatenando a seqüência do pensamento, passou a demonstrar mais segurança e domínio sobre as informações que já havia estudado. Pareceu um milagre, em poucas horas ela havia se transformado numa excelente comunicadora, sendo exatamente ela mesma e projetando uma imagem diferente, de alguém que estava em condições de tratar de temas mais elevados. No final ela estava intrigada – Mas, falar é só isso? Fácil assim? E o mesmo livro usado pela Sabrina estava lá de plantão para explicar. Pedi que ela lesse um trecho da página 37: “A forma convicta de se expressar, a segurança com que constrói o raciocínio, a maneira correta como elabora as frases, conjuga os verbos, faz as concordâncias, ajudarão a projetar uma imagem positiva e confiante. Por isso, prepare-se o máximo que puder para falar sobre um tema. Saiba muito mais do que precisaria saber a respeito do assunto sobre o qual irá discorrer. Aprenda de tal forma a matéria, que sobrem informações. Talvez você nem as utilize, mas esse conhecimento adicional contribuirá para que se sinta ainda mais seguro e conquiste confiança e credibilidade”.

Joana Prado, a Feiticeira, estava feliz com a sua conquista – Pois é , Polito, só faltava me dedicar um pouco mais sobre alguns temas que eu já conhecia.

Eu não queria que tudo parecesse fácil demais, por isso pedi que ela continuasse lendo um pouco mais:
“Aproveite todas as oportunidades para demonstrar a consistência do seu conhecimento. Use estatísticas e pesquisas de fontes idôneas, exemplos fiéis, que possam ser comprovados. Seja muito cuidadoso com os números e os dados que apresentar, pois uma falha no resultado de um estudo técnico, por exemplo, poderá pôr tudo a perder.

Se encontrar objeções a seu ponto de vista, demonstre que possui conhecimento das posições contrárias e que não tem receio de discutir argumentos diferentes dos seus, nem interesse em se esquivar da ponderação dessa análise.

Prepare-se da melhor maneira que puder para fazer a apresentação. Ensaie todos os detalhes, teste os equipamentos que pretende utilizar, revise as anotações, enfim, não deixe nada ao acaso. Esse preparo demonstrará sua competência e atitude profissional. Os ouvintes o respeitarão ainda mais por esse planejamento e por essa organização.

Portanto, é importante que você tenha autoridade no assunto que irá apresentar, mas os ouvintes só confiarão em suas palavras se souberem desse seu conhecimento. Precisam saber que o assunto é fruto de sua experiência, de suas pesquisas, das atividades que desenvolve ou que desenvolveu. Quando as pessoas perceberem que você domina naturalmente o conteúdo da mensagem, aceitarão sua autoridade e respeitarão sua competência. Demonstre conhecimento, fale com convicção e conquiste credibilidade”.

A Feiticeira fechou o livro, suspirou, e disse com ar triunfante – sinto-me bem confiante para falar, mas percebo que precisarei me preparar cada vez mais sobre qualquer assunto que pretenda abordar. A vida é um aprendizado que não se esgota nunca.

Aula com a Sheila Mello
E foi assim também com a Sheila Mello. Acho que nunca tive uma aluna mais disposta em aprender do que ela. Sempre incansável, não se incomodava de repetir os mesmos exercícios várias e várias vezes. No seu caso, para que ela entrasse no clima de uma comunicação mais espontânea, eu pedi que antes de começar a falar dançasse um pouco. Era simples assim, dançava e ficava na dela, conversando como se estivesse batendo um papo com o Compadre nos bastidores do show do É o Tchan. No final do primeiro dia de treinamento já era outra, tão solta para falar como conseguia ser para dançar. Saiu da aula, participou de um programa de televisão de grande audiência e foi um arraso, recebendo elogios de todos os lados.

A lição do treinamento com a Sheila Mello é bastante evidente. Para se sair bem em uma apresentação use todos os recursos de que dispuser. Conte piadas, faça imitações, cante, dance, interprete personagens, enfim, faça o que souber fazer de melhor. Comunicação é conteúdo, como vimos há pouco na análise da comunicação da Feiticeira, mas é também espetáculo. Se você conseguir conjugar o conteúdo com o espetáculo contará com um ingrediente excepcional para o sucesso da sua comunicação.

São apenas três exemplos, mas que podem ser multiplicados por milhares. Pessoas que aprenderam a ser nas situações mais formais como sempre foram no dia a dia; que descobriram ser necessário conhecer os assuntos do seu campo de pesquisa com a maior profundidade possível; e a usar sem constrangimento os recursos que podem transformar suas apresentações em verdadeiros espetáculos estéticos.

Experimente você também e veja como funciona. Tenho certeza de que se surpreenderá com você mesmo.

Ah, e quando assistir a uma apresentação de uma dessas popozudas, mesmo que estejam quase sem roupa, se conseguir, preste atenção também na maneira de falar delas. E se pelo fato de o seu interesse ser muito grande sobrar um beliscão da ciumenta ao lado, já terá um belo alvará – estou seguindo as lições de comunicação do Polito. E ela compreensiva irá dizer: Lições de comunicação? Então tá!

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