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19 dez 2018

Descrevendo imagens para emocionar

Reinaldo Polito

Fecham-se as cortinas e termina o espetáculo, torcida brasileira.
Difícil acreditar! Fiori Gigliotti nos deixou no início do junho passado. Aos 77 anos, depois de mais de 50 anos atuando no rádio, morreu o maior narrador esportivo de todos os tempos. Ironicamente, o extraordinário comunicador que cobriu 10 copas do mundo saiu do nosso convívio exatamente na véspera, um dia antes do início da copa de 2006.

Fiori fez parte da minha vida, pois desde garotinho me acostumei a ouvir suas narrações esportivas. Numa época em que ter televisão era privilégio de poucos, ele sabia como ninguém descrever e criar cenas que mexiam com a emoção daqueles que o acompanhavam pelo rádio. Era um artista da palavra. Sua interpretação ia além das frases bem construídas, acrescentava o tom de voz, a pausa medida com perfeição, o quadro pintado com as cores e os detalhes que transportavam os ouvintes para dentro dos estádios de futebol.

Nem sempre era um estádio real, pois para emocionar as pessoas que ficavam grudadas no rádio, às vezes usava a imaginação e transformava um jogo sem muitos atrativos num espetáculo inesquecível. Dizem que durante uma partida teve problemas para se aproximar com o microfone do local onde poderia ver o jogo. Sem se abalar, passou a receber notícias por meio de uma pessoa que a todo o momento corria até ele para contar sobre algumas jogadas.

E foi assim, com apenas algumas poucas informações recebidas de um terceiro ele narrou mais um emocionante espetáculo de futebol.
Fiori conhecia os caminhos que levavam ao coração dos ouvintes. Nós interioranos sempre tivemos muito orgulho em ver um jogador que havia pertencido ao nosso time atuando numa grande equipe.

Por isso, mexia com esse sentimento ao dizer: Balão subindo, balão descendo, cabeça na bola aliviando. Pelé tenta passar e não passa, a bola fica com Dudu, o moço de Araraquara.

Sabendo que as lembranças estão sempre presentes na vida dos torcedores, que tiveram grandes alegrias ou tristezas acompanhando as jogadas dos atletas que defenderam seus clubes, Fiori criou um programa que levava os ouvintes às lágrimas – “cantinho da saudade”, onde contava a história de antigos craques. Relatava a trajetória vitoriosa dos jogadores e de como haviam desaparecido dos noticiários esportivos, às vezes pobres, esquecidos, longe do carinho dos fãs que em tantas oportunidades vibraram com seus feitos e aplaudiram suas jogadas.

Há cerca de um ano e meio, na edição 62 da VENCER!, escrevi um texto falando sobre a comunicação dos locutores esportivos. Nesse artigo dediquei algumas linhas para falar de Fiori Gigliotti:
“…as transmissões de Fiori Gigliotti sempre puderam ser comparadas a uma música bem tocada.

exatamente como elas ocorriam, mas da maneira como o torcedor gostaria de ouvir, fazia com que as pessoas se sentissem dentro do estádio, acompanhando lance por lance cada momento da partida. O início já era uma emoção toda particular: “Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo, torcida brasileira”.

O encerramento do jogo mais emocionante ainda, pois o torcedor da equipe que estava vencendo ansiava por aquele momento, enquanto o do time perdedor rezava para que o jogo continuasse, mas, como ele mesmo dizia “agora não adianta chorar” e encerrava “apita o árbitro, fecham-se as cortinas e termina o espetáculo, torcida brasileira”.

Você que conhece bem o Fiori deve estar estranhando o fato de eu me referir ao passado, sendo que ele está firme, vibrante e muito competente narrando os jogos de futebol e comandando a equipe de esportes da Rádio Record.”
Nunca pensei que tão pouco tempo depois eu estaria aqui entristecido me referindo a ele já no passado.
Fiz essa referência ao Fiori Gigliotti primeiro para prestar uma homenagem a este que foi o ídolo de muitas gerações, e que a partir de agora fará parte do nosso cantinho da saudade; depois porque foi um dos maiores exemplos da habilidade de construir quadros na imaginação dos ouvintes.

O princípio da eloqüência

Você já tentou definir eloqüência? Não é tarefa simples. São tantos os aspectos a serem considerados que chega a parecer impossível vencer esse desafio. Um orador fala irado, em altos brados e dizem ser ele eloqüente. Outro fica em silêncio depois de uma afirmação contundente e julgam ser ele eloqüente. Há aquele que sorri com ironia e que também pode ser tomado por eloqüente.

Por isso, o máximo que se consegue na tentativa da busca de uma definição de eloqüência é encontrar alguns conceitos vagos, que podem ser aplicados em determinadas circunstâncias, mas que nunca se completam. Na realidade, é mais simples sentir e perceber quando uma pessoa se expressa de forma eloqüente do que tentar explicar esse aspecto da arte de se comunicar.

Um livro que marcou muito o estudo da comunicação em público, exatamente pela obstinada ousadia de tentar definir eloqüência, é A arte de falar em público, de Mário Gonçalves Viana, publicado em Portugal na década de 1950. Entre os vários conceitos apresentados pelo autor português nas pouco mais de 20 páginas dedicadas ao esclarecimento da eloqüência, destacam-se reflexões como “Eloqüência é a arte de falar com alma e com beleza, é a arte de expor com vivacidade e com justeza”.

Entretanto, de todos os conceitos mencionados, aquele que consegue explicar a eloqüência com mais propriedade é uma frase de Pascal utilizada por Viana “a eloqüência é a pintura do pensamento”. Ou seja, é eloqüente aquele que consegue pintar com palavras e gestos o quadro que está em sua mente. É nesse momento que o orador, ao descrever a cena que está em sua imaginação, transporta o ouvinte para uma outra realidade, fazendo com que ele comungue de suas idéias.

Portanto, a descrição de cenas que levem o ouvinte a observar e a sentir com detalhes o quadro que está na imaginação do orador é o melhor caminho para envolvê-lo com a mensagem.

A descrição pode emocionar

Em uma das palestras que fez no nosso Curso de Expressão Verbal, o dr. Waldir Troncoso Peres, um dos mais eloqüentes oradores da história do Direito do país, comentou que o poder de descrição usado pelo famoso advogado criminalista italiano Enrico Ferri era tão eloqüente que quando ele descrevia uma locomotiva atropelando uma criança, os ouvintes se levantavam com a impressão de que a máquina estava atravessando o plenário.

O próprio Troncoso Peres sempre foi um orador eloqüente também pela habilidade com que descrevia cenas ou as criava na imaginação do público. Lembro-me do discurso em que ele agradeceu a uma homenagem recebida da Ordem dos Advogados do Brasil. Ao falar da sua paixão pela advocacia, descreveu o fato com tanta expressividade que deu a impressão de que era perseguido, agarrado e quase sufocado por sua atividade:

– Porque quando eu estava cansado da advocacia, e eu ia descansar, só me retemperava na advocacia. Num processo de obstinação patológica. Porque eu sempre a amei, porque ela vive dentro de mim, porque ela está incorporada a mim. Porque ela é minha companheira, porque ela não se descarta de mim, porque ela não me é infiel, porque ela não me dá trégua, porque ela me persegue. E apesar de tudo isso eu a amo.
Procure ler esse discurso falando rápido, como se estivesse querendo fugir de uma perseguição. Assim compreenderá e sentirá melhor a competência da descrição do orador.

Em certas circunstâncias a descrição deve servir apenas para tornar clara determinada informação e ajudar o ouvinte a acompanhar com mais facilidade o desenvolvimento do raciocínio. Em outros momentos ela deve criar imagens na mente do ouvinte para sensibilizá-lo e envolvê-lo com a proposta da mensagem.
A dra. Edna Barian Perrotti, na magnífica obra Superdicas para escrever bem diferentes tipos de texto, publicada pela Editora Saraiva, orienta sobre um e outro tipo de descrição. Embora ela se refira à descrição para o texto escrito, seus ensinamentos podem perfeitamente ser adaptados à comunicação oral:

Considere o objetivo ao descrever

Ao se referir a um objeto, uma pessoa, um lugar, um processo, um produto etc., você poderá ser totalmente fiel às suas características ou apresentá-las de uma forma subjetiva, de acordo com seu ponto de vista. A opção por ser mais objetivo ou mais subjetivo dependerá da finalidade do texto. Uma bula de remédio, por exemplo, deve apresentar o produto exatamente como ele é, com todas as características necessárias para a segurança de quem vai consumi-lo. O mesmo se pode dizer dos manuais de instrução.

Contudo, se a finalidade for valorizar o referente para impressionar o leitor, você pode enfatizar algumas qualidades e omitir outras; amenizar alguns aspectos e ressaltar alguns detalhes, apresentando o produto segundo seu ponto de vista:

Você não vai deixar de comprar meu carro. Lindo!Com 5 aninhos, conserva todas as peças originais,como se tivesse acabado de sair da fábrica.

Quilometragem baixinha, bancos de couro preto combinando com o azul da lataria, que nunca sofreu um só arranhão, e vidros escuros. O preço? Pessoalmente…

O uso do diminutivo ameniza o fato de o carro não ser novo, assim como ter todas as peças originais e nunca ter sofrido um só arranhão convence o leitor de suas qualidades.
Além da finalidade, convém lembrar que só um bom observador faz uma boa descrição. Por isso, sempre que precisar falar de um determinado produto, procure conhecer todas as suas características, obter o máximo de informações a seu respeito, para depois descrevê-lo de acordo com seu ponto de vista.
Agora uma dica: se trabalhar bem a linguagem vale para o vendedor, prestar atenção na maneira como ela foi utilizada é muito útil também para o comprador”.

Na obra Bakhtin, dialogismo e construção do sentido, organizado por Beth Brait, Solange Jobim e Souza, no texto “Mikhail Bakhtin e Walter Benjamin: polifonia, alegoria e o conceito de verdade no discurso da ciência contemporânea”, relata como Walter Benjamin no livro Infância em Berlim, a partir da descrição transforma elementos de nossa tão concreta realidade, em um mundo mágico, espiritual.
Observe como a descrição que Benjamin faz de um simples par de meias sensibiliza e transporta o leitor para o local e o momento vivenciado por ele. Como leva a imaginação do leitor a espreitar os instantes em que ele procura suas meias na gaveta e as sente nas mãos:

“ARMÁRIOS. O primeiro armário que se abriu por minha vontade foi a cômoda. Bastava-me puxar o puxador, e a porta, impelida pela mola, se soltava do fecho. Lá dentro ficava guardada minha roupa. Mas entre todas as minhas camisas, calças, coletes, que deviam estar ali e dos quais não tive mais notícia, havia algo que não se perdeu e que fazia minha ida a esse armário parecer sempre uma aventura atraente. Era preciso abrir caminho até os cantos mais recônditos; então deparava minhas meias que ali jaziam amontoadas, enroladas e dobradas na maneira tradicional, de sorte que cada par tinha o aspecto de uma bolsa. Nada superava o prazer de mergulhar a mão em seu interior tão profundamente quanto possível. E não apenas pelo calor da lã.

Era ‘tradição’ enrolada naquele interior que eu sentia em minha mão e que, desse modo, me atraía para aquela profundeza. Quando encerrava no punho e confirmava, tanto quanto possível, a posse daquela massa suave e lanosa, começava então a segunda etapa da brincadeira que trazia a empolgante revelação. Pois agora me punha a desembrulhar a ‘tradição’ de sua bolsa de lã. Eu a trazia cada vez mais próxima de mim até que se consumasse a consternação: ao ser totalmente extraída de sua bolsa, a ‘tradição’ deixava de existir. Não me cansava de provar aquela verdade enigmática: que a forma e o conteúdo, que o invólucro e o interior, que a ‘tradição’ e a bolsa, eram uma única coisa. Uma única coisa – e, sem dúvida, uma terceira: aquela meia em que ambos haviam se convertido.”

A descrição pode persuadir

Vamos exemplificar o poder da descrição para persuadir a partir do resultado de discursos de alunos políticos que me procuram em época de campanha eleitoral. Quando peço a alguns deles que elaborem um discurso para ser proferido em bairros da periferia, às vezes costumo ouvir promessas que mesmo sendo sinceras não motivam ninguém a votar em seu nome:

– Se eleito, prometo asfaltar e iluminar as ruas deste bairro. Em seguida oriento para que tentem descrever os problemas que os moradores daquele bairro sofrem por causa da falta de asfalto e de iluminação. Por exemplo:

– Vocês têm sofrido muito por causa da falta de asfalto e de iluminação. Quando chove as ruas viram um verdadeiro inferno. Vocês são obrigados a caminhar na lama, sujar os sapatos e a roupa. E por mais que tentem evitar não é possível entrar em casa sem levar o barro para dentro, sujando e até estragando pisos e tapetes. Quando faz sol a situação pode ser ainda pior. É só bater o vento e a poeira vai para dentro de casa sujando a roupa que está no varal, as cortinas, os lençóis da cama. A falta de iluminação se transformou em motivo de desespero. Quem consegue dormir sossegado enquanto os filhos não chegam do trabalho ou da escola? Quantos já foram assaltados e, infelizmente, até estuprados porque são obrigados a caminhar sozinhos, sem proteção à noite pelas ruas escuras.
Nós podemos mudar essa situação. Basta que me elejam como seu representante na Câmara Municipal. Em outubro votem em mim para vereador.

A descrição mais detalhada dos fatos pode fazer com que os ouvintes percebam de forma mais clara os problemas que estão enfrentando e se sintam motivados a ter ao seu lado alguém interessado em solucioná-los.
Embora o exemplo tenha sido da fala do político, o recurso da descrição pode ser utilizado em todas as situações, desde o relacionamento social, nas conversas com amigos e familiares, até as mais complexas reuniões na vida corporativa.

Descrever não é ser prolixo

O risco de quem começa a descrever os detalhes da mensagem com o objetivo de esclarecer ou persuadir os ouvintes é o de cair no outro extremo e se tornar prolixo. Lembre-se de que a cada dia mais as pessoas estão ocupadas, atarefadas e, por isso, exigem apresentações objetivas e diretas. Portanto, excesso de detalhes, sem considerar a finalidade da descrição, poderá tirar a atenção do público e prejudicar o resultado da sua exposição. Tenha sempre sensibilidade para perceber os limites adequados da descrição e aumentar assim as chances de sucesso de suas apresentações.

O ideal é descrever e criar as imagens de tal forma que os ouvintes possam se transportar para aquele cenário como se estivesse mesmo interagindo e participando de todo o processo de comunicação, uma dimensão da linguagem que vai além do uso das palavras, que transforma o mundo em um acontecimento vivo, mágico, que nos une, nos emociona e nos encanta.

Essa é uma qualidade que exige muita prática, observação e bom senso. Foi assim que agiu Fiori Gigliotti nos cinqüenta e tantos anos em que esteve à frente dos microfones criando e descrevendo quadros que em muitas ocasiões existiram apenas na imaginação dele, mas que emocionaram e conquistaram gerações de torcedores que jamais o esquecerão. Ele apenas acabou de partir, mas para nós, que o admiramos tanto “fecham-se as cortinas e termina o espetáculo, torcida brasileira”. Que pena!

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