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19 dez 2018

Falar bem é demonstrar competência

Reinaldo Polito

Tive um amigo de infância, Ariovaldo, que durante um bom tempo sofreu porque achava que as outras pessoas conseguiam ouvir seus pensamentos. Se estivesse conversando com alguém e surgisse um pensamento negativo, rápido cuidava de pensar em algo diferente porque tinha certeza de que o interlocutor ouvia tudo o que se passava em sua cabeça. Como não tolerou a pressão, caiu na besteira de abrir a alma e contar essa sua insegurança para um “capetinha” do grupo, Serjão. Sua vida que já andava de cabeça para baixo virou de vez um inferno. Serjão anunciou a esquisitice do Ari a todo ser que respirava. Depois dessas inconfidências, assim que ele aparecia na esquina sempre havia um moleque para azucrinar seu sossego: – Ari, se você continuar pensando essas besteiras a respeito da minha irmã, vou te encher de porrada. E o Ari que até então ficava vermelho diante de situações constrangedoras, daí para frente começou a ficar roxo. Encheram tanto o saco do pobre do Ari, que, de repente, num estalo, ele percebeu o tamanho da asneira que havia criado para si mesmo, e de um dia para outro se juntou ao grupo fazendo autogozação. Antes que alguém dissesse alguma coisa ele se antecipava: – Meus pensamentos são um livro aberto. Aí perdeu a graça e ninguém mais falou no assunto.

Sei que existe muita gente por aí sofrendo do mesmo mal do Ari, imaginam que seus pensamentos podem ser ouvidos por quem estiver ao seu lado. Deve ser duro viver assim, não poder nem pensar que o outro está mal-vestido, ou que a vizinha tem um belo corpo, porque é como se estivesse confessando seus pecados em voz alta.

Exceto as pessoas que costumam falar sozinhas, mas que, de maneira geral, também conseguem se controlar perto dos outros, nossos pensamentos não têm voz, não falam independentemente de nossa vontade. Entretanto, todo o nosso corpo fala – e muito!

O Ari não era tão esquisito assim

Nossos pensamentos não falam, como imaginava o Ari, contudo, é possível perceber a partir dos sinais dados pelo corpo o que estamos verdadeiramente sentindo e se a mensagem transmitida pelas palavras é ou não consistente, se possui ou não coerência. Na obra Análise do caráter, Wilhelm Reich diz que “a linguagem humana atua, interfere na linguagem da face e do corpo. Por isso, a expressão total de um organismo deve ser literalmente idêntica à impressão total que o organismo provoca em nós”. Por exemplo, se um líder tem intenção de motivar determinado grupo a seguir em certa direção para atingir os objetivos da causa que abraçam, provavelmente veria seus propósitos frustrados se inconscientemente demonstrasse no semblante as dúvidas e as incertezas que o preocupam. A impressão total que o seu corpo provocaria em seus liderados não corresponderia à mensagem transmitida pelas palavras.

Até independentemente das palavras existe a possibilidade de se observar incoerências na comunicação. Na obra Human Communication, Stewart L. Tubbs e Sylvia Moss dizem: “uma interessante questão levantada por Ekman é se as pistas dadas pelos movimentos do corpo são diferentes daquelas dadas pela cabeça e pelos movimentos faciais. Suas descobertas indicam que a cabeça e o rosto sugerem qual emoção está sendo experimentada enquanto o corpo dá pistas a respeito da intensidade dessa emoção. As mãos, contudo, podem nos dar as mesmas informações que nós recebemos da cabeça e do rosto”.

Você pode constatar pelas informações desses diferentes estudiosos que se não houver coerência e harmonia entre as palavras, os sentimentos transmitidos, a entonação usada, os sutis movimentos do corpo, a expressão facial, os gestos – enfim a coerência e harmonia de uma mesma linguagem – nossa comunicação estará seriamente prejudicada e a nossa competência, confiança e credibilidade questionadas.

A demonstração de competência

Nas diferentes fases de sua formação as pessoas aprendem a usar de maneira adequada o tom da voz, os gestos, a comunicação facial, as reações do corpo, enfim, desenvolvem habilidades que as preparam para conviver naturalmente em sociedade. De acordo com a cultura em que são educadas, as sutilezas são incorporadas na maneira de se comunicar e de se expressar: um discreto levantar de sobrancelha, que indique surpresa; uma quase imperceptível mordida no lábio inferior, que demonstre ansiedade; um rápido tamborilar com os dedos que informe impaciência. Ainda nessa fase de aprendizado, conforme os hábitos e costumes da comunidade em que a pessoa foi criada, ela descobre até que ponto pode ou não se aproximar fisicamente dos outros, qual o tom de voz apropriado para as mais diferentes situações e todas as reações próprias para uma boa convivência. Com o passar do tempo esse comportamento é naturalizado e constantemente monitorado.

Anthony Giddens na obra Modernidade e identidade, afirma que “Aprender a tornar-se um agente competente – capaz de se juntar aos outros em bases iguais na produção e reprodução de relações sociais – é ser capaz de exercer um monitoramento contínuo e bem-sucedido da face e do corpo”.
Deduz-se, portanto, que para o indivíduo se sentir competente precisa manter o domínio sobre o corpo em todas as situações sociais. Além disso, o autor afirma que “ser um agente competente significa não só manter tal controle contínuo, mas ser percebido pelos outros quando o faz”.

Temos aqui dois pontos distintos a serem observados para a mesma condição:

– O primeiro, em que a pessoa precisa monitorar sempre o seu corpo para que se sinta com o domínio das ações e se mostre competente e confiante. É uma espécie de porto-seguro que dará a ela tranqüilidade e segurança.

– O segundo, em que esse domínio deve ser percebido pelos outros.

Se, por acaso, a primeira condição não puder ser atendida, ou seja, a pessoa não conseguir manter o controle do corpo, ela perderá sua proteção e sua confiança básica será ameaçada. Conseqüentemente a segunda condição será afetada, pois os outros perceberão este descontrole e poderão desconfiar da sua competência.

Vamos imaginar, por exemplo, que você como supervisor se sinta confiante e bastante confortável em suas atividades profissionais. Conhece muito bem a rotina do seu trabalho e se relaciona com desenvoltura nos diversos ambientes ligados direta ou indiretamente às sua funções. Por causa desse domínio da situação seu corpo age e reage com normalidade, como deve mesmo se comportar nos momentos em que se sente à vontade. Esse fato o deixa, portanto, muito confiante. Entretanto, um belo dia seu chefe adoece e lhe incumbe de explicar o planejamento estratégico do próximo semestre ao vice-presidente da organização. Você se encontra diante de duas situações que fogem do seu controle: não conhece os pormenores do planejamento estratégico que deverá ser implantado e tem pouca intimidade com o grande chefe. Esses fatores estranhos à sua experiência rompem a proteção de confiança básica com a qual seu corpo estava acostumado quando havia o domínio de todas as ações e você se sente nervoso e inseguro. É evidente que o Big Boss tem a expectativa de receber uma pessoa que conheça muito bem os planos que serão apresentados e que se comporte com a desenvoltura própria de quem possui esse conhecimento. Diante dele, provavelmente, sua insegurança ficará evidente e seu corpo deixará transparecer a falta de domínio sobre a matéria. Mesmo que você conhecesse o assunto em todos os detalhes, se ficasse nervoso pelo fato de estar diante de uma pessoa importante na hierarquia da empresa, ainda assim o comportamento do corpo revelaria desconforto, fato que poderia facilmente ser interpretado como falta de domínio sobre o assunto abordado.

Vamos imaginar agora uma outra situação fora do ambiente de trabalho. Uma pessoa é convidada para um jantar e se surpreende com o excesso de formalidade do ambiente. Encontra ali mais talheres do que pensou existir. Essa falta de habilidade em tratar com a situação, que é desconhecida para ela, retira-a da zona de conforto e a sua intranqüilidade passa a ser revelada pelas reações de descontrole do corpo. Quem estiver ao seu lado irá perceber que não se sente à vontade naquele local.

Esses exemplos hipotéticos demonstram como é importante ter o domínio do corpo e das ações para que a própria pessoa se sinta segura e confiante, e para que os outros percebam esse domínio e também a vejam como bem preparada e competente.

Ocorre o mesmo na tribuna

O domínio do corpo e das ações é de importância fundamental diante da platéia. Ao falar em público você precisa se sentir e ser visto como competente. Se você não estiver no controle de suas ações, sua confiança se sentirá ameaçada e você sairá da zona de conforto, ficará inseguro e poderá ser visto como incompetente.

Já nos primeiros instantes, quando precisar acertar o microfone, você poderá se sentir desestabilizado. Se você não souber como manusear os diversos mecanismos que seguram, soltam ou inclinam a haste que apóia o microfone, não terá o domínio e o controle das reações do corpo e das suas ações. Nem precisará ser um nervosismo tão evidente – a fisionomia um pouco mais carregada, um sorriso fora de hora, qualquer detalhe poderá tirar aquela “capa” protetora e deixá-lo desprotegido. A situação o coloca num verdadeiro círculo vicioso, pois ao não ter o domínio do corpo você se sentirá inseguro; como conseqüência terá receio de que o vejam assim, esse receio o tornará mais intranqüilo ainda. Como vimos há pouco, para que os ouvintes confiem na sua competência precisam ver nas reações do seu corpo os sinais de uma pessoa segura e confiante. Como você não parecerá seguro por causa da falta de domínio de suas ações e do controle do corpo, duvidarão também da sua competência.

Daí para frente, você tendo ou não controle sobre o acerto do microfone, suas atitudes serão observadas o tempo todo, pois além de você precisar ter o domínio do seu corpo para todas as ações, deverá demonstrar esse domínio também para os ouvintes.

Citei o acerto do microfone como sendo a primeira atividade diante da platéia, mas há outras que antecedem a esta, como a maneira de se relacionar com os ouvintes antes de se dirigir à tribuna, ou a forma como você se desloca da platéia até à frente do grupo. Se não demonstrar pelos seus gestos, pelo andar, pela fisionomia que se sente bem naquela situação, a análise que as pessoas farão a seu respeito já poderá ser negativa.

As primeiras palavras, que são proferidas no momento em que você normalmente está mais intranqüilo, são as mais difíceis. Se você não souber como cumprimentar as pessoas ou tiver dúvida com relação à precedência que deverá obedecer, mais uma vez poderá perder o domínio das ações.

E assim, durante toda a apresentação, se você revelar qualquer tipo de desconforto ou de inabilidade, como enfiar constantemente as mãos nos bolsos, esfregar as mãos de forma nervosa, andar desordenadamente de um lado para o outro, agarrar sem motivo a haste do microfone, enfim, aparentar falta de domínio para falar em público, seu corpo ficará sem controle e será analisado como alguém despreparado também com relação ao tema que estiver apresentando. Você também sairá da sua zona de conforto e poderá perder o controle do corpo se apresentar outros problemas de comunicação como truncar as frases, valer-se com freqüência do “né?”, do “tá?” no final das frases, ou do “Haaammm” durante as pausas, perder-se com as anotações. Tudo o que mostrar falta de domínio para se apresentar em público poderá comprometer o controle do seu corpo e deixá-lo nervoso.

Falar bem não é só questão estética

Por incrível que possa parecer, ainda hoje algumas pessoas julgam que saber falar bem é só uma questão estética, que satisfaz a vaidade de quem se apresenta em público. A competência para se apresentar bem diante da platéia está muito além dessa questão estética, é condição para que o orador demonstre que está preparado para tratar da matéria a que se propôs abordar. Provavelmente você já deve ter assistido a apresentação de algum orador que pelos trabalhos que desenvolveu ou pelas obras que produziu era tido como grande autoridade no tema, mas que por causa da falta de habilidade para falar em público foi visto com desconfiança pela platéia. A habilidade para se expressar bem em público demonstra que para o orador essa é uma atividade rotineira, comum na ordem natural da vida, e o ouvinte que o vê à vontade nessa circunstância deduz naturalmente se tratar de alguém que tem o domínio do assunto que apresenta.

Invista na sua comunicação

Mesmo que a sua comunicação tenha boa qualidade, sempre será possível melhorar ainda mais. Quanto mais você dominar a arte de falar em público, mais seguro irá se sentir e maior será o controle que terá sobre o seu corpo. Sentido-se à vontade diante do platéia os ouvintes o verão como um orador seguro, com domínio do corpo e confiarão ainda mais em suas palavras.

Não deixe para descobrir como funciona o mecanismo do microfone na hora em que estiver diante do público, treine com antecedência como manusear os diversos tipos de haste, a que distância deverá se posicionar, como retirá-lo da haste para segurar nas mãos e se locomover diante das pessoas. Estude formas diferentes de cumprimentar os ouvintes. Aprenda a seguir corretamente as regras da precedência e saiba em que circunstâncias essa orientação poderá ser modificada. Domine as diferentes formas de fazer a introdução, pois especialmente nesses momentos iniciais quando o desconforto diante do auditório é maior você precisa se sentir tranqüilo para que as reações do seu corpo não o traiam. Saiba como estruturar qualquer tipo de apresentação para ter segurança nas etapas que deverão ser cumpridas desde o princípio até a conclusão. Leia em voz alta diferentes tipos de textos para se acostumar com o som da própria voz, melhorar a respiração e praticar a entonação que deverá interpretar o sentimento das mais variadas mensagens. Improvise temas que estejam nos jornais, nas revistas, ou nos livros para saber como se sair diante dos imprevistos da comunicação. Faça exercícios com recursos de apoio, como roteiros ou cartões de notas. Memorize quatro ou cinco etapas de um assunto e desenvolva a apresentação com base nessa estrutura. Aproveite todas as oportunidades para falar diante das pessoas, quanto mais experiência você tiver, mais seguro e confiante se sentirá. Treine, exercite, ensaie. Não deixe para desenvolver essa habilidade apenas quando surgir a oportunidade de falar diante das pessoas. Comece agora, inscreva-se em um curso de expressão verbal, estude livros que tratam da matéria, leia os números já publicados da Revista Vencer, que desde a primeira edição dedica um ótimo espaço para ensinar os leitores como se apresentar diante de grupos de pessoas. Faça da arte de falar em público uma atividade conhecida.

Ah, e se for apanhado falando sozinho durante os seus treinamentos, não se preocupe; lembre-se de que só está fazendo exercícios, pois assim como no caso do meu amigo Ariovaldo seu pensamento não estará falando em voz alta.

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