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23 set 2019

FHC ensina como falar com diplomacia

por Reinaldo Polito

Basta ler as páginas amarelas da revista Veja e você verá um orador com qualidades a serem seguidas e admiradas

Algumas situações da vida corporativa exigem um refinamento da comunicação que só pode ser desenvolvido e aprimorado ao longo de anos de prática, estudo e observação. Essa habilidade superior da expressão verbal, que se vale principalmente de mensagens implícitas, necessária para superar os momentos mais delicados, também pode ser conquistada a partir da análise dos exemplos das pessoas que acumularam extraordinária experiência no desenvolvimento das suas atividades.

No Brasil temos o privilégio de conviver com dois homens públicos que aprimoraram a comunicação durante muitos anos enfrentando em discursos, negociações e debates as mais complexas circunstâncias: Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva. E o mais interessante é que os dois, por possuírem a mesma experiência no exercício do cargo de Presidente da República e hoje, depois de terem sido ferrenhos adversários, precisarem, por conveniência dos seus propósitos, conviver de maneira harmoniosa, buscam um relacionamento diplomático que exige tanto de um quanto do outro aprimorado senso de oportunidade e profundo conhecimento das estratégias de comunicação.
Vamos estudar as técnicas utilizadas por esses dois excepcionais estrategistas da palavra analisando algumas respostas de FHC na entrevista que concedeu às páginas amarelas da revista Veja.

Para que possamos compreender melhor o comportamento de FHC temos de saber que nas circunstâncias em que precisamos nos posicionar diante de fatos obrigatoriamente envolvendo pessoas com as quais não seja conveniente estabelecer confrontos de qualquer natureza, a técnica mais adequada é a de fazer a defesa da nossa causa e enfatizar apoio às idéias e às ações oposicionistas utilizando o texto literal, enquanto as neutralizamos, de maneira diplomática, com as palavras que só podem ser compreendidas nas entrelinhas. Observe como FHC deu excelente exemplo de como devemos falar com inteligência ao defender posições pessoais, neutralizando opiniões adversárias e mantendo um apropriado campo de neutralidade.

O jogo de palavras

Não é novidade o fato de FHC sentir prazer em se relacionar com a comunidade internacional, pois ao longo dos oito anos em que esteve à frente do governo manteve inúmeros contatos de excelente qualidade com os chefes de estado de praticamente todos os países importantes. Desde a época em que estava promovendo a transição para o governo Lula até sua volta de Paris, onde passou um período de férias, deixou claro que ficaria à disposição sempre que fosse chamado para alguma missão onde sua presença pudesse ser útil para o Brasil. É lógico, entretanto, que Lula, por ter criticado tanto o governo FHC e por considerá-lo ainda um adversário – embora negue, o ex-governante será sempre um possível candidato às eleições presidenciais – não gostaria que a ajuda se efetivasse, e poderia mesmo considerar essa atitude como uma intromissão.

Ao ser questionado sobre esse assunto, de maneira inteligente, procurou respeitar essa possível posição de Lula ao mesmo tempo em que com um jogo de palavras habilidoso conseguiu manter sua proposta original.

Veja – O senhor não teme ser mal interpretado ao dizer que está pronto a ajudar o governo, como fez logo após retornar ao Brasil, na semana passada?
FHC – Não disse ajudar o governo. Disse ajudar o Estado, atuar em nome do Estado, como faz o ex-presidente Jimmy Carter pelos Estados Unidos. Agora, não serei mais candidato a nada.

Veja – Talvez só a presidente da República?
FHC – Não. Nada. Isso não está no meu horizonte. Uma pessoa na minha posição, que foi eleita duas vezes, governou oito anos, não pode entrar na briga de estilingue da política, não deve ficar se oferecendo de enxerido para nada. Se, no entanto, o Estado acha que há uma tarefa para alguém com minha experiência, devo estar pronto para ajudar.

O jogo de palavras utilizado nessa resposta também foi uma demonstração inequívoca do seu preparo diplomático. Observe que ele insistiu que não se ofereceu para ajudar o governo, mas sim o Estado, apoiando suas palavras no exemplo do papel desempenhado pelo ex-presidente americano Jimmy Carter. Embora os conceitos de Estado e governo sejam diferentes* devemos considerar que o governo é o representante do povo e que não há Estado que possa se dizer desvinculado do povo, logo ajudar o governo ou o estado, nessas circunstâncias seria praticamente o mesmo, mas com esse artifício conseguiu preservar sua posição e mostrar que não desejava se intrometer. Além dessa condução habilidosa das palavras, para que ninguém pudesse acusá-lo de estar tentando preparar sua volta à presidência cuidou de dizer que tinha cumprido a tarefa como governo e que na sua posição não poderia participar de briguinhas políticas.

A dupla defesa

Defender uma posição do adversário pode ser uma excelente estratégia para justificar a própria linha de ação. É uma atitude que exige conhecimento da maneira de pensar e das expectativas de todos que receberão a mensagem. Uma das maiores críticas que FHC recebeu de seus oposicionistas é de ter empreendido uma política neoliberal sujeitando suas decisões à vontade do mercado. Quando o jornalista pediu que ele fizesse comentários sobre a política neoliberal de Lula aproveitou a oportunidade para defender aquele que sempre o criticou, ao mesmo tempo em que mostrou sutilmente que as críticas que recebeu foram infundadas.

Veja – Como o senhor se sente vendo que a política econômica de seu governo, que seus adversários descreviam como neoliberal, está em pleno vigor agora?
FHC – O que chamavam de neoliberalismo nunca existiu. O mercado nunca definiu as regras de funcionamento da sociedade durante meus oito anos na Presidência. Longe disso. Os gastos sociais nunca foram tão altos quanto no meu governo. Como proporção do PIB, os gastos sociais passaram de 11% a 14%. O que nós fizemos foi justamente o contrário do proposto pelo que se costumou chamar de neoliberalismo. O que fizemos foi recompor o Estado, que tentamos fazer mais ágil e mais apto a responder aos desafios do mundo atual. O que se está vendo no governo Lula também não é neoliberalismo. É apenas a prova de que a margem financeira de manobra no mundo atual é muito pequena para os governantes. Qual o presidente que fica feliz em aumentar a taxa de juros? Nem os banqueiros vêem isso com satisfação, porque quando os juros sobem isso provoca inadimplência e todos perdem. Subir juros é uma coisa que o governo faz apenas quando é obrigado.

Ao falar do neoliberalismo deu uma aula de diplomacia. Sabendo que sempre foi criticado por patrocinar uma política neoliberal, defendeu-se dizendo que essa prática não existiu, pois o mercado nunca definiu as regras de funcionamento da sociedade durante seu governo. Forneceu dados que comprovam suas afirmações e no final, como um mestre do jogo político, disse que o governo Lula também não é neoliberal. Lógico que Lula vai gostar de ler essas palavras, pois o ajudam a mostrar à sociedade que não está copiando o governo neoliberal de FHC, que é uma das mais pesadas críticas que está recebendo. E a defesa é ampliada quando diz que ninguém fica feliz em aumentar a taxa de juros, nem os banqueiros, por causa da inadimplência. Se não ganha o Lula, não ganham os banqueiros e é uma decisão antipopular, significa que foi tomada mesmo por necessidade. E o Lula ufa! agradece.

A arte de engolir sapos

É antigo e muito sábio o ditado popular que diz: malandro esperto não chia. Vemos a aplicação prática desse conceito a toda hora nos campos de futebol, quando jogadores ingênuos fazem faltas ostensivas ou reclamam de maneira acintosa com o árbitro e vão mais cedo para o chuveiro. Outros, entretanto, mais experientes, fazem faltas sem que praticamente ninguém perceba e nunca reclamam com o juiz, por mais que se sintam prejudicados.

Desde que começou a deixar a presidência FHC projetou uma imagem muito positiva de democrata e generoso com seus adversários. Esse comportamento, embora tenha ajudado Lula a assumir o cargo com muito mais tranqüilidade é evidente que de alguma maneira o incomoda – afinal, foi auxiliado por aquele que criticou de forma contundente durante os últimos anos. Há pouco tempo, ao discursar na fábrica da Mercedes, em São Bernardo do Campo, Lula usando toda sua habilidade, desenvolvida desde o tempo em que atuou como líder sindicalista, procurou incomodar Fernando Henrique, quem sabe com a intenção de fazer com que revidasse e perdesse um pouco da imagem de homem bom, cordato, atencioso, prestativo e de todos os adjetivos que tem recebido nos últimos tempos. Em determinado momento do seu discurso Lula disse que fazia questão de visitar empresas aqui no Brasil, e não como alguns que só pensaram em visitar o exterior. FHC com sua experiência, inteligência e equilíbrio engoliu o sapo, e ao se referir ao adversário melhorou ainda mais a imagem positiva que conquistou.

Veja – Que recomendação o senhor faria a seu partido, o PSDB?
FHC – Acho que é hora de reflexão. Reunir dez, doze cabeças, analisar o Brasil e produzir uma concepção nova de sociedade, de futuro para o país. Obviamente, isso não pode ser fabricado intelectualmente. Tem de ser uma experiência e tem de ser fruto do que está acontecendo aqui. Tem de dar tempo ao tempo. Agora, neste momento, não devemos estar falando nada, nem sobre o governo do Lula. Ele está apenas começando. É cedo para ficar criticando. O Lula foi muito amistoso comigo e tem sido correto. Acho isso bom. Eu também fui com ele. A transição que foi feita do meu governo para o dele teve lá fora uma repercussão extraordinária. Mostrou que o Brasil é democrático. Acho que dei minha contribuição para isso.

Talvez esse tenha sido um dos mais importantes ensinamentos da competência da comunicação de Lula e FHC. Um aproveitando o momento do retorno do ex-presidente para tentar deixá-lo em posição desconfortável, enquanto que o outro assimilando o golpe, sem demonstrar contrariedade, neutralizou o ataque retribuindo com mais elogios e lembrando mais uma vez como contribuiu para o processo democrático do país.

Analisamos três das técnicas utilizadas nessa entrevista de FHC, mas outras de importância semelhante poderiam ser observadas nas respostas do ex-presidente. Recomendo a leitura acompanhada de uma criteriosa observação técnica de toda entrevista. Tenho certeza de que muitos ensinamentos poderão ser extraídos dessa verdadeira aula de comunicação.

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