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23 set 2019

Não brinque com o inimigo

Quando eu, meu irmão, meus primos e toda garotada da rua invadíamos o sagrado espaço da cozinha, defendido com olhares de censura pela minha avó Joana, depois de duas ou três brincadeiras mais ruidosas, ela nos dizia pausadamente do alto de sua sabedoria cultivada pelos anos de experiência: graça por graça uma vez só basta. Acusávamos a reprimenda e batíamos em retirada. Aprendi assim, depois de levar muitos desses puxões de orelhas, que brincadeiras ruidosas podem irritar algumas pessoas e que não é um comportamento bem-vindo em todos os lugares. Mas, brincar pode? Pode e deve. A vida com alegria é quase um sinônimo de felicidade. Pessoas bem-humoradas, de espírito leve são muito bem recebidas em praticamente todas as rodas de conversa. E aqui entra um complicômetro do relacionamento humano. As piadas e brincadeiras barulhentas, além de irritar as Joanas da vida, quase sempre, prejudicam a imagem do engraçadinho. O humor sutil, refinado transforma-se num atestado de inteligência e de preparo intelectual. Enquanto o trocadilho grosseiro e a piada rasteira demonstram rusticidade social, a ironia fina e as tiradas espirituosas espontâneas leves atestam originalidade e formação requintada. Até aqui nada de novo nos dez mandamentos da convivência humana. Só que, por ser sutil, o mesmo humor que pode nos projetar, pode também, às vezes, nos trazer aborrecimentos. Seria desnecessário explicar que a sutileza do humor funciona quando o interlocutor também é dotado de sensibilidade e massa cinzenta. Tanto que para nos relacionarmos bem com diferentes grupos precisamos medir esse nível de sutileza, de acordo com a capacidade de compreensão das pessoas com quem mantemos contato. Lembro-me de uma explicação interessante dada pelo Chico Anísio. Ele dizia que iniciava seus shows sempre com uma piada bem leve, que poderia ser contada no chá das freiras, e media a reação do público; depois ia colocando mais tempero nas seguintes, até que a risada da platéia ficava meio forçada. Essa era a medida. Daí para cima era como se falasse no bar do cais do porto.
Sem contar que o humor sutil, além de não ser entendido por todos, pode se transformar numa poderosa arma nas mãos dos nossos inimigos e adversários. Esses José Silvério dos Reis de plantão ficam aguardando a oportunidade para dar o bote e nos atacar. Pegam ao pé da letra as palavras que deveriam ser entendidas apenas no sentido figurado, fingem que não entenderam a intenção sutil da brincadeira e se mostram, normalmente diante de outras pessoas, indignados. E ficamos desesperados dando explicações de que tudo não passou de uma ingênua brincadeira. A pessoa que nos atacou finge querer ajudar e faz aquele ar de quem está perdoando nosso deslize. Só que as outras pessoas que participam da conversa também podem ficar contaminadas e acreditar que fomos mesmo grosseiros. Por isso, quando suspeitar da presença de algum inimigo na conversa, não vacile. Faça brincadeiras com sutileza, use o humor sutil, que é a medida do seu preparo e a marca da sua inteligência, mas exagere na maneira de comunicar. Fale fazendo caretas, imitando vozes estranhas, use pausas mais prolongas, para que não fique nenhuma dúvida de que a intenção é muito distinta do que a mensagem direta comunica. Na dúvida, não arrisque e fique na sua. Redobre o cuidado quando for escrever. No papel, ou na tela do computador você não poderá contar com a ajuda da expressão corporal ou da voz para informar que está brincando. Portanto, aqui valem as aspas, as reticências e até os avisos explícitos de “brincadeirinha”.
Não deixe de brincar ou de usar seu humor sutil, mas precavenha-se dos cabeças de ostra e das pessoas bem preparadas que não possuem escrúpulos para dar uma boa puxada no seu tapete.

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