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25 ago 2019

Não se leve muito a sério

por Reinaldo Polito

– Fala, cabeção!
– Cabeção é a vó.
Pronto. Essa reposta foi suficiente para que o garoto carregasse pela vida afora o apelido de cabeção. Se tivesse ficado quieto e fingisse não se incomodar, a chance de que o deixassem em paz aumentaria muito.
Resmungar ou reagir emocionalmente às ofensas pessoais quase nunca é a melhor política. Ao contrário, de maneira geral, agrava ainda mais a situação.

E não é só com relação às ofensas que devemos manter a calma e o equilíbrio, mas em qualquer circunstância da nossa vida.
Aprender a rir dos nossos próprios tombos, a zombar dos nossos deslizes e a nos divertir com as nossas gafes é um bom caminho para nos tornarmos pessoas mais leves e cativantes.
Quando o jornalista Humberto Werneck me entrevistou para a revista Playboy, um dos trechos que fez mais sucesso foram as “dicas para conquistar o sexo oposto” – e, de todas, a que julgo mais importante é a que sugere não se levar muito a sério. É uma delícia conviver com pessoas que não têm a preocupação de ficar se justificando ou dando explicações para suas falhas. Errou? Sem drama – põe na conta, passa a régua e segue o enterro, pois a vida continua.

O exemplo do Jô Soares

Na abertura de seu programa, Jô Soares costuma ler no teleprompter algumas piadas e casos interessantes. Só que, às vezes, as piadas não têm graça e os casos nem sempre são lá muito interessantes. No princípio esse fato não o deixava muito à vontade. Afinal, a piada e o caso tinham sido preparados para serem engraçados, e, como o público não ria, ele se sentia meio constrangido.Com o tempo descobriu que era possível aproveitar esse fato de maneira positiva. Se o público risse, ótimo, ele fazia aquela carinha feliz de quem tinha escolhido com bom gosto e inteligência uma ótima piada. Se, entretanto, a platéia não reagisse, não tinha problema, ele se juntava ao grupo e criticava o que havia acabado de falar com frases semelhantes a essas: “Essa é muito podre, não tem graça nenhuma”; “que história mais sem graça, e eu ainda tenho a coragem de vir diante das câmeras ler uma besteira dessas”; ou simplesmente dava uma risada irônica debochando da própria atitude. Com essa autogozação, invariavelmente, passou a arrancar gargalhadas da platéia – mais até do que conseguiria se a piada tivesse sido engraçada.
Essa estratégia deixou o apresentador de televisão muito mais à vontade, pois passou a contar os casos e as piadas com maior desenvoltura, com a certeza de que, no final, o resultado seria sempre bom.

Os bushismos

Depois que George W. Bush assumiu a presidência dos Estados Unidos, as suas escorregadelas gramaticais e impropriedades lingüísticas vieram à tona de forma mais acentuada. Até porque, como presidente, é óbvio que tenha ficado mais exposto e chamado mais a atenção.
E são tantos os erros cometidos que, logo nos primeiros meses na presidência, foi publicado um livro com seus deslizes. Com o título de George W. Bushisms, que em bom português significa bushismos de George W., a obra relata pérolas como esta: “Mais e mais nossas importações vêm do exterior”. De maneira inteligente, ao invés de ficar chateado e tentar se defender, juntou-se ao grupo e passou a rir das próprias gafes. Durante o jantar na Associação dos Correspondentes de Rádio e Televisão, que se realiza anualmente em Washington, ele não hesitou em fazer coro com o livro que aponta suas impropriedades:

Alguém organizou uma coletânea de minha perspicácia e sabedoria acidentais (risos). Estou muito orgulhoso de já ter minhas palavras num livro. Portanto, a exemplo de outros autores, achei que deveria ler um pouco dele esta noite (risos). É como ler os pensamentos do presidente Mao, só que com gargalhadas, e não em chinês (risos). Eis aqui uma do livro – e eu de fato disse isto (risos): Sei que seres humanos e peixes podem coexistir pacificamente (risos). Isso dá o que pensar (risos e aplausos). Qualquer um pode fazer uma sentença coerente, mas uma como esta leva a uma dimensão totalmente nova (risos). Quando eu estava entrando na fase adulta, o mundo era perigoso e sabíamos exatamente quem eles eram. Éramos nós contra eles. E estava claro quem eles eram (risos). Hoje, não estamos certos de quem eles sejam, mas sabemos que estão por aí (risos e aplausos).

E assim prosseguiu Bush, lendo suas frases, divertindo a platéia e se divertindo com ela. Quem poderia criticá-lo se ele mesmo tomou a iniciativa de fazer a autogozação? No final do discurso, ainda brincando com seus erros, esclarece como essa atitude pode servir de proteção aos possíveis ataques, ao mesmo tempo em que ajuda a produzir uma imagem simpática e envolvente:

Agora, senhoras e senhores, vocês têm de admitir que, em minhas frases, chego aonde ninguém chegou ainda (risos). Para encerrar, considero-me uma bênção para a língua inglesa. Cunhei palavras novas, como ‘hispanicamente’ (risos). Ampliei definições empregando ‘vulcanizado’ quando encontrei ‘polarizado’; ‘grécios’ quando queria dizer ‘gregos’. E em vez de dizer ‘barreiras e tarifas’, eu disse ‘tarreiras e barifas’ (risos). E vocês sabem por quê? A vida continua (risos). Minha mulher e minhas filhas ainda me amam (risos). Nossas forças armadas ainda protegem nossas praias (risos). Americanos ainda se levantam e vão para o trabalho (risos). Pessoas ainda saem e se divertem, como estamos fazendo esta noite. Não penso que seja saudável levar-se muito a sério. Mas levo muito a sério minha responsabilidade como presidente de todo o povo americano. É o cargo que ocupo. E foi isto que vim dizer-lhes esta noite. Obrigado por me considerarem, e obrigado por sua ‘horspitality’ (sem tradução – risos e aplausos).*

* Frank Bruni do The New York Times, reproduzido no caderno internacional do Estadão em 9 de abril de 2001.

Carla Perez, um avião… com turbulência

Se analisarmos bem a Carla Perez, de todas as popozudas que dançam, é a mais simpática e comunicativa. Com aquele arzinho de menina ingênua, sempre sorridente, fala em qualquer situação com naturalidade e desembaraço. Aprendeu a ser assim espontânea na Bahia, lugar de muita gente simpática, acolhedora e onde parece que todos já nascem comunicativos. O problema é que, por não ter tido boa formação cultural e se expor muito, de vez em quando escorrega no vernáculo. Como a vez em que procurou esclarecer com um telespectador, num programa ao vivo, se a letra que ele estava sugerindo era i mesmo, i de iscola, né? E, ao ser entrevistada, respondeu ao entrevistador que o seu hobby era cor-de-rosa (ela jura que nunca disse isso).

A galera não perdoa e sempre que se referem a ela o comentário é unânime: – Professor Polito, a Carla Perez fala mal, hein! Para ela não há curso que resolva. Na verdade, como já vimos, ela fala bem e até muito bem, mas esses erros prejudicam muito a sua imagem.
Pois não é que ela faturou em cima dos seus deslizes?! Em uma propaganda de um provedor de Internet, para mostrar que era fácil operá-lo, apareceu em todo o país em anúncios dizendo: – Se até eu consegui, você também consegue. Ou seja, se até eu que sou burrinha consegui, você, que é mais inteligente, não vai ter dificuldade. Brincou e ganhou com seus erros.

Luciana Gimenez, um espanto… do vernáculo

No princípio Luciana Gimenez tentou justificar os gravíssimos erros de português que comete. Não deu certo. Como convencer alguém que ela diz intertenindo em vez de entretendo pelo fato de ter morado fora do país?! Decidiu, então, não se levar tão a sério e passou a brincar com seus próprios erros. Hoje, quando comete um deslize, provavelmente alertada pela produção do programa, comenta imediatamente: – Tá vendo, Gimenez, depois não quer ser criticada por causa dos seus erros. Veja só o que acabou de dizer. Essa atitude a retirou da posição defensiva, melhorando muito sua imagem diante dos telespectadores.
A produção do programa “Superpop” chegou a pensar na contratação de um professor de português para brincar com seus erros – talvez tivesse dado resultado, mas com certeza ficou muito melhor com ela mesma fazendo as críticas.

Um alemão que faz muito sucesso

Costumo ilustrar minhas palestras com alguns vídeos muito interessantes. Entre todos, o que faz mais sucesso é o de um ex-aluno, um alemão de nome Papi, que dá um excelente exemplo de naturalidade e de como conquistar a simpatia dos ouvintes fazendo gozações com sua rígida origem alemã. Procure ler seu depoimento tentando “ouvir” suas palavras com um sotaque alemão bem carregado:
Vivo vinte anos neste país, e como já Goethe falou, dois almas vive hoje em mi corrpo. Vou contarr uma histórria. Um ano atrrás, Brrasil, os prroblemas diárrias, que poco a poco se enge, non? Enton, pocas semanas antes da viagem parra Eurropa, falei com mi filha: – Zabe, filha, o que odio neze país? Eze bagunza, eze trrânsito em Son Paulo, eza poluizon. Horras parra ir-ze ao trrabalho, horras parra volta. E eze povo? Eze povo azeita tudo – as filas nos bancos, as filas nos reparrtizões públicas, os políticos mentirrosos, a polizia que non serrve. Veja, eze país realmente non dá, azim non dá parra viverr, vamos parra Alemanha. Fumus parra Alemanha. E nós gegamos no aerroporrto e as crrianzas correndo, já gegou um guarrda e falou: – Aqui as crrianzas non pode correrr. Falei: – Veja, Alemanha é diferrente, non? Aí pegamos o carro e eu non zabia onde porr gasolina. Preguntei a um guarrda e ele me conteztô: – Vozê non pode lerr? Falei: – Veja, filha, azi és um país educado. Aí, zaimos do aerroporrto parra pista, entrramos errado, parrei, e todo mundo comezou a grritarr: – Loco, loco. Falei: – Filha, eze és um país onde non ze pode ir-ze da pista dirreita parra a pista esquerrda, neste país ze tem uma pista e tem que ir-ze até o final do mundo, depois pode voltarr. Gegamos na casa uma horra atrrasados e non havia mais comida, porrque na Alemanha ze gega na horra parra almozarr.
E azim, após de dois zemanas eu falei parra mi filha: – Zabe uma coisa, vamos voltarr parra Amérrica Latina, zen parrentes, vamos irr na noza prraia, podemos tomarr uma caipirrinha zen penzar ze é prreso após porrque tem zerro vírgula zinco por mil de álcool. E no aerroporrto eze povo gentil, que realmente vozê pregunta e mesmo non zabe ele te manda em qualquerr dirrezón, mas te contezta. E azim fizimos, voltamos e estamos felizes.

Essa crítica bem-humorada que faz com sua origem, mesmo sendo em vídeo, arranca aplausos da platéia. E é muito comum encontrarmos pessoas que assistiram à palestra há muito tempo e que se recordam da fala do alemão, sempre com comentários elogiosos.

Use o recurso da autocrítica com inteligência

Vimos que a autocrítica é um excelente recurso para cativar as pessoas, pois demonstra que não somos guiados pela vaidade e que não vivemos nos policiando com atitudes defensivas. Entretanto, tome muito cuidado para não se transformar em arauto das suas imperfeições. Se observar bem, irá constatar que em todos os exemplos que mencionamos as pessoas utilizam o recurso da autocrítica com inteligência. Jô Soares passou a criticar as piadas sem graça que contava como um meio de evitar o constrangimento e conquistar a simpatia da platéia. Bush tomou a iniciativa de brincar com seus erros porque já tinham sido divulgados, publicados e por isso mesmo eram muito conhecidos. E aproveitou a circunstância para reafirmar que achava importante não se levar muito a sério, mas que agia com muita seriedade nas suas funções como presidente dos americanos. Da mesma forma, Carla Perez, Luciana Gimenez e o alemão, todos, sem exceção, fizeram da autocrítica e da autogozação um ponto de apoio para obterem algum tipo de benefício.

Portanto, vá com calma com o andor, não saia por aí fazendo autocríticas que possam prejudicá-lo. Tenho aconselhado inúmeras pessoas a mudar a atitude quando percebo que, para fazerem um charminho, começam a se autodepreciar. Por exemplo, aquele que diz que de manhã tem muita dificuldade para funcionar e que, neste período, se tiver que fazer algo importante, precisa pegar no tranco. Ou aquele que, ao ter que pedir nova explicação para informações que não tenha entendido, revela que é meio lentinho para raciocinar. Essas atitudes não são inteligentes e podem comprometer irremediavelmente a imagem da pessoa. Por isso, nada de sair por aí dizendo que se acha meio burrinho, preguiçoso, lerdo, desorganizado, impontual, dorminhoco e tantos outros adjetivos que só contribuirão para desgastar a imagem.

A não ser, conforme vimos, que o fato seja muito conhecido e que por isso não haveria possibilidade de ocultá-lo. Assim, ao tomar a iniciativa de se criticar, aproveite a oportunidade para valorizar alguns outros aspectos das suas atividades ou da sua personalidade. Vamos rever resumidamente como essa regra foi aplicada nos exemplos citados:
* Bush
Autocrítica – citar os próprios erros e não se levar a sério.
Objetivo – dizer que governava com seriedade.
* Alemão
Autocrítica – a rigidez do povo alemão.
Objetivo – falar da preferência pelo Brasil, apesar dos problemas.
* Jô Soares
Autocrítica – revelar que a piada que contou não tinha graça.
Objetivo – demonstrar que é inteligente e rápido de raciocínio, tanto que percebeu, assim como a platéia, que a piada não teve graça.

Portanto, três atitudes devem ser evitadas: ficar se defendendo ou se justificando por falhas ou erros cometidos; divulgar desnecessariamente suas imperfeições ou problemas de conduta; fazer autocrítica sem aproveitar o fato para obter benefício.

Para ofensa moral, não há acordo

Se alguém criticar o modelo da sua roupa, seu corte de cabelo, os aros dos seus óculos, sua dicção, seus erros gramaticais, ou qualquer outro detalhe de menor importância, não reaja emocionalmente, ao contrário, procure concordar com quem o criticou. Poderá dizer, por exemplo, que talvez pudesse ter escolhido uma roupa mais apropriada, que sentiu mesmo que os aros dos óculos estavam meio pesados, que já estava na hora de dar uma melhorada na dicção ou aperfeiçoar a gramática.
Agora, se alguém mexer com a sua moral dizendo que você é corrupto, desleal, aproveitador, ou fizer qualquer outra crítica que possa prejudicá-lo, parta imediatamente para cima da jugular do agressor pedindo que ele apresente provas do que está dizendo e revelando que irá processá-lo por aquelas mentiras. Tudo sem se deixar levar pela emoção, mas agindo com muita firmeza.
Espero que nunca tenha que passar por uma situação semelhante. Portanto, pegue leve, enfrente as situações com bom humor, inteligência e se beneficie com esse comportamento.

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