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19 dez 2018

Politicamente incorreto

por Reinaldo Polito

Expressões que no passado eram encaradas com naturalidade, hoje são vistas como preconceituosas. Evite usá-las em público

Você tem mais de 45 anos? Tem? Então precisa duplicar os cuidados com a história do politicamente correto. Sim, porque quem tem mais de 45 anos foi criado dentro de uma cultura em que chamar o amiguinho de rua ingenuamente de negão ou de pretinho, de japinha, de alemão, era tão espontâneo quanto natural. Tanto é verdade que os meus amigos negros de infância, e que eram muitos, quando passavam em casa (ou di casa, como diziam no meu bairro lá em Araraquara), deixavam recado com a minha mãe: avisa que o negão, ou o pretinho, passou “daqui”.

Com o tempo, entretanto, tratar as pessoas com palavras que identificam a cor da pele ou a origem racial passou a ser politicamente incorreto. Assim, numa fase de transição, lá pelo final da década de 60 e início dos anos 70, as pessoas começaram a mudar o jeito de falar. O tratamento passou a ser “pessoa de cor”. E a pergunta que se fazia era essa: “Pessoa de cor? Mas de que cor você está falando?” Essa observação demonstrava que o novo tratamento também era visto como preconceituoso. Por isso, o pessoal mais veterano ficou perdido, sem saber como agir. Afinal, como chamar o velho amigo que sempre foi tratado por negão, ou japinha, ou alemão? — e que nunca achou ruim, a ponto de assumir o apelido com a maior tranqüilidade. Com o passar do tempo, curiosamente, dizer que a pessoa era negra, amarela ou branca também passou a ser visto por alguns como tratamento preconceituoso. Aí os quarentões quase piraram. E agora, como falar? Afro-brasileiro, nórdico, oriental? O pior da história é que esses tratamentos para quem tem mais de 45 eram e são usados com a mesma naturalidade. O problema é que são tachados de criminosos. Sim, porque agora é lei, um crime inafiançável.

Antes que os deuses do Olimpo se voltem contra mim, peço licença para esclarecer: Não estou discutindo o mérito da lei que trata do preconceito. Eu também acho que essa agressão precisa ter um fim. O que pretendo discutir é a situação daqueles que foram criados e formados dentro de uma cultura em que determinadas atitudes eram vistas e aceitas com naturalidade, mas que agora precisam mudar o registro, mesmo não existindo a mínima intenção de agredir.

Você tem menos de 45 anos? Tem? Então precisa quintuplicar os cuidados com o politicamente correto. Lógico, porque quem tem menos de 45 já foi criado no seio de uma sociedade consciente de que tratar as pessoas pela cor da pele ou origem racial indica preconceito. Portanto, se incorrer nesse erro, não terá desculpa – errou sabendo que estava errando. Mas onde estou querendo chegar com essa reflexão? Simples. Ao falar, seja em público ou para poucos interlocutores, saiba que ser politicamente correto não é sempre conversa de gente chata que não tem o que fazer na vida. É um cuidado que precisamos ter para considerar o próximo, com suas características, anseios, formação e experiências. Mas não há como negar que tem muita gente hipócrita por aí. São aquelas pessoas que costumam exagerar: pegam tudo ao pé da letra e ficam vigiando cada virgula do que é dito para cair de pau em cima do desavisado. Como dizia a minha querida professora de arte Dra. Marlene Fortuna: Dá uma enxada para ele, porque o que falta aí é serviço.

Mas é preciso ter cuidado. Um deslize nessa questão pode jogar por terra o resultado de uma apresentação. Fique atento, principalmente, nas suas conversas do dia a dia, pois o que dizemos nos contatos com as pessoas mais próximas é o que acaba saindo também diante do público. Você não precisa se tornar um chato ou um paranóico como alguns bobinhos que andam por aí à caça de bruxas. Mas fique esperto.

Só para dar um exemplo: quando escrevi o livro Como falar Corretamente e Sem Inibições, que por sinal está entrando neste mês em sua 100ª edição, tive um problema. Ao tratar do tema relacionado ao medo de falar em público, inclui uma citação de um dos mais importantes nomes da história da psicologia, o ex-professor da Getúlio Vargas e renomado conferencista Emílio Mira Y. Lopes. Em uma passagem da sua famosa obra Quatro Gigantes da Alma, o autor afirma que o medo é o gigante negro. O mundo quase caiu sobre minha cabeça. Recebi inúmeras cartas me acusando de ser preconceituoso simplesmente porque usei uma citação baseada na obra de um conceituado estudioso. Se você olhar o livro a partir da quarta edição, vai constatar que inclui uma nota de rodapé com a seguinte explicação: Emílio Mira Y. Lopes, na sua obra Quatro Gigantes da Alma, identifica cada gigante por uma cor característica – o medo é negro, a ira é rubra, o amor é róseo e o dever é incolor.

Eu, hein! É por essas e por outras que você também deve tomar cada vez mais cuidado com possíveis deslizes. Mas sem paranóia ou hipocrisia.

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