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19 dez 2018

Se for brincadeira, exagere

Por Reinaldo Polito

Deu na Veja – em Cartas, sob o título “Ser engraçado é difícil”, a revista fez o seguinte comentário sobre uma de suas matérias publicadas: “…foi uma tentativa – pelas reações adversas dos leitores, não muito bem-sucedida – de fazer humor”. Ocorreu o seguinte: a revista fez uma brincadeira usando jogo de palavras para ironizar algumas incorreções gramaticais. Usou a frase “A nível de coragem, palmas para Jade”, como título de uma pequena nota, para associá-la no final do texto com outra expressão condenável – “a autora Glória Perez, resolveu enroscar em Jade a jibóia ‘Pimpolho’. Profissionalíssimas, as duas contracenaram sem problemas. ‘Sempre achei que fosse ter medo. Mas em cena tenho uma grande segurança, enquanto Jade’, diz a corajosa Giovanna”.

Foi uma forma bastante sutil e muito inteligente da revista chamar a atenção para esses deslizes da nossa inculta e bela. Só que a observação foi sutil demais e cento e quarenta e tantos leitores levaram as frases ao pé da letra e inconformados escreveram para revista. E se mais de cento e quarenta tiveram a iniciativa de escrever, dá para imaginar o número de pessoas que não se manifestaram, mas também não entenderam a intenção do texto e o criticaram em silêncio.

Por isso, não brinque com brincadeiras, leve-as muito a sério. E levar brincadeira a sério significa demonstrar de maneira muito clara que está brincando. Se depois de usar uma ironia, por exemplo, tiver de explicar que o que acabou de fazer foi só uma brincadeira, significa que sua atitude ao brincar não foi apropriada. Fique muito atento, falando ou escrevendo, e deixe claro que está brincando, para não arrumar confusão.

E confusão é o que não falta quando nosso humor não é bem interpretado. Embora o bom-humor, mas bom mesmo, de qualidade, seja apontado como um dos recursos mais importantes para o sucesso da comunicação, é por outro lado uma forma quase sempre perigosa e arriscada de se comunicar. Primeiro, porque a linha que separa o humor vulgaridade é muito delicada e nem sempre perceptível. Quanto mais nos aproximamos dessa linha, mais bem-humorados nos tornamos, mas maior passa a ser o risco de ultrapassarmos o limite e nos tornarmos vulgares.

Depois, há inúmeros fatores que predispõem as pessoas a entender e a aceitar o humor. Depende da cultura, do nível intelectual, do ambiente, da receptividade à mensagem ou ao orador, enfim, são tantos detalhes que compreendê-los e dominá-los exige experiência e muita capacidade de observação. Finalmente, a forma de fazer humor precisa ser tão evidente aos ouvintes que eles não tenham dúvidas de que o que estão ouvindo não pode ser tomado no sentido literal, mas sim de que se trata de uma brincadeira. As pessoas podem ficar chateadas e se sentir traídas quando acompanham um raciocínio de maneira compenetrada e no final, ou melhor, depois do final, informadas de que tudo não passou de uma brincadeira. Às vezes não dá para consertar mais, pois já amarraram o bico, cruzaram os braços e querem continuar descontentes. E as pessoas se chateiam também quando ocorre o contrário, pensam que tudo não passa de uma brincadeira e descobrem decepcionadas no final que o assunto era sério.

Para não incorrer nesses inconvenientes, desde o início vá dando sinais do tom da apresentação, para que os ouvintes, até inconscientemente, se preparem para o objetivo da mensagem. Assim, você poderá surpreender o ouvinte, já que a surpresa é uma espécie de combustível para alimentar e realimentar o interesse das pessoas, sem que ele se sinta enganado, pois de alguma maneira, pelas pistas que recebeu, sabia qual seria o andar da carruagem.

Quanto mais baixo for o nível intelectual dos ouvintes, mais fortes deverão ser os sinais do tom que pretende dar. Ao contrário, quanto mais bem preparada for a platéia, mais sutil poderá ser essa indicação. No caso de dúvida não vacile, nivele por baixo para evitar riscos.

Vigie sua forma de falar quando pretender usar o humor e observe se as pessoas estão entendendo com facilidade que você está brincando. Se perceber que precisa ficar dando explicações de que se tratou de uma brincadeira, passe a exagerar até que ninguém mais tenha dúvidas. Faça caretas, imite a voz do fanho, engrosse ou afine a voz, estenda as pausas, fale como se fosse um estrangeiro tentando se expressar na nossa língua com sotaque carregado e outros recursos que puder encontrar. Como ninguém falaria assim normalmente ficará evidente que você está brincando.

No Brasil, quem sabe indicar com inteligência e na medida certa quando está brincando e em que momento fala com seriedade é o Max Gehringer. Seus textos possuem esse equilíbrio de humor e de conteúdo que faz pensar, e você nunca fica em dúvida se ele está brincando ou falando sério. Vale a pena ler seus artigos na VOCÊ s.a. e na EXAME e também seus livros. É uma boa forma de aprender e observar a aplicação do humor para depois adaptá-lo ao seu próprio estilo.

Resumo de como se comportar para usar o humor:

Deixe muito claro que está brincando

O humor é um dos recursos mais importantes para o sucesso da comunicação

O uso do humor é arriscado porque existe uma linha muito delicada que o separa da vulgaridade; porque há inúmeros fatores que predispõem as pessoas a entender e a aceitar o humor (cultura, nível intelectual, ambiente, receptividade); porque a forma de fazer humor precisa ser evidente.

As pessoas podem se chatear e se sentir traídas quando o tom da apresentação indica informação séria e depois descobrem que era brincadeira e vice-versa

Desde o princípio vá dando sinais do tom da apresentação

Surpreenda sempre os ouvintes, sem, entretanto, enganá-los

Quanto mais baixo o nível intelectual dos ouvintes mais fortes deverão ser os sinais do tom que se pretende dar. Quanto mais elevado for o nível intelectual, mais sutis poderão ser os sinais do tom. Em caso de dúvida use sinais fortes

Fique atento e vigie sua forma de usar o humor – se sentir que está precisando explicar suas brincadeiras exagere até que não precise mais dizer que estava brincando. Faça caretas, imite a voz do fanho, engrosse ou afine a voz, estenda as pausas, fale como se fosse um estrangeiro tentando se expressar na nossa língua com sotaque carregado

Leia os textos do Max Gehringer para aprender como usar o humor e como falar com seriedade, sem que os ouvintes tenham dúvidas das suas intenções

Veja um caso interessante de quando o humor sai pela culatra

O pedalinho

Em uma das aulas do nosso curso a proposta era a de que o aluno contasse um fato interessante ocorrido na sua vida, e todos relatavam casos interessantes e divertidos. Por isso a expectativa era a de que esse tom fosse mantido até o final. Um dos alunos começou a contar sua história ressaltando que o fato era mesmo muito interessante. Disse que era jovem foi com um grupo de estudantes fazer uma excursão em uma fazenda. Chegando lá encontraram um lago muito bonito com alguns pedalinhos na margem, amarrados uns aos outros, e com diversas tabuletas avisando que era proibido usar aqueles aparelhos. À noite, depois que todos foram dormir, ele e seu melhor amigo, com quem havia convivido a vida toda, resolveram sair do quarto e ir até o lago. Desamarraram um dos pedalinhos e foram brincar com ele na água. Quando estavam no meio do lago entenderam o por quê de todos aqueles avisos de uso proibido, eles estavam furados e o que estavam usando começou a fazer água. Desesperados, no meio daquela escuridão começaram a se debater tentando chegar à margem. Comentou que com as energias esgotadas conseguiu chegar em terra firme e se salvar. E com os olhos lacrimejando revelou que o seu amigo, entretanto, não teve a mesma sorte e morreu afogado. Foi um constrangimento geral, todos ficaram perplexos, em silêncio sem saber como reagir – a aula que estava tão alegre e divertida se transformou num verdadeiro velório. Tomei a iniciativa e dei um intervalo para o café. Esse é um bom exemplo de como contrariar a expectativa e decepcionar a platéia mudando o tom indicado para uma apresentação.

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